sábado, 14 de julho de 2012

O diário de uma professora (parte VII)


Elisa, década de 1930

Com cinco filhos e um marido irriquieto, Elisa está na cidade de Avaí, SP, quando, em 1924, estoura a “Revolução de 1924” (1). Estes acontecimentos vão afetar muito a sua vida e a da sua família. Com o fim da revolta, Elisa muda-se para Presidente Venceslau, SP, e, depois, para São Paulo. Trata-se de um período penoso para a família.

Com mais de vinte anos de docência, Elisa ainda não conta com estabilidade e maiores benefícios no emprego de professora, sujeitando-se a escolas precárias no interior do estado. Conforme se pode ler abaixo, nem aos seus dois filhos mais novos estava garantida a escola.

De certa forma, acompanhando a penetração das estradas de ferro, Elisa foi uma espécie de desbravadora. Quando chega a Presidente Venceslau, esta era uma cidade recém-fundada (2).

Depois de Presidente Venceslau, Elisa vai para São Paulo, graças à intervenção de um amigo da família, o Sr. Pedro Vass. Não consegui, até o momento, informações sobre ele, mencionado por duas vezes no Diário. Se alguém souber, me conte. Pelo que se lê no Diário, foi pessoa que muito ajudou Elisa. 

Vamos ao Diário.

O diário (parte VII)

[Corria o ano de 1924]. Joãozinho veio a São Paulo buscar Olga que estava interna no Colégio des Oiseaux e Lúcio que continuava frequentando o Conservatório, e ao mesmo tempo fazendo preparatório para a Escola de Farmácia. Eu aborreci-me com uma colega que queria, teimosamente, que fechássemos o Grupo. Como não havia motivo para isso, neguei-me e ela zangou-se, retirando-se da escola.

Assim, num ambiente inquietante, foram se passando os dias da revolução, até que esta terminou com a vitória do governo. Então, aqueles que ficaram de cima, começaram a perseguir os derrotados.

Como Joãozinho (como médico) havia atendido um ferido revoltoso, foi denunciado e preso como revolucionário.

Prenderam também Romeu, que nada havia feito. Ficamos revoltados com tamanha injustiça e, nessa ocasião pedi minha demissão de diretora passando apenas a tomar conta de minha classe.

Romeu foi logo posto em liberdade, mas Joãozinho ficou detido, em sala livre, 46 dias!

Voltando a Avaí, desgostosos, resolvemos nos mudar daquela localidade e consegui minha remoção para Presidente Wenceslau. Ali comecei a trabalhar em uma casinha de madeira, muito mal acomodada, com 40 alunos entre meninos e meninas. Nessa ocasião era obrigatória a frequência entre 9 e 10 anos. Com alunos dessa idade, eu completei o número de 40, ficando Dulce sem escola, porque estava com 11 anos e Cid também, porque tinha apenas 7.

Interessante: os filhos da professora sem escola! Em Wenceslau passei os piores dias da nossa vida... Até que, depois, de uma grande luta, consegui minha remoção para a capital. Era, nessa ocasião Diretor Geral da Instrução Pública, o Sr. Pedro Vass, muito amigo de minha família.

Fui com mamãe à sua casa, expliquei-lhe a minha situação e o meu desejo de vir para cá. Ele, muito bondoso, disse-me: procure-me na Diretoria de Ensino, em dia que não seja de audiência.

Fui. Disseram-me que o Sr. Pedro Vass não atendia naquele dia, pois havia ido despachar com o Sr. Secretário do Interior. Resolvi esperar e esperei 5 horas. Quando o Sr. Pedro Vass chegou, mandou chamar-me e, risonho, disse: vá comprar os jornais da tarde e lá você lerá a sua remoção. Que surpresa agradável! Agradeci e saí. A minha remoção estava publicada nos seguintes termos: Elisa Wey Muniz Barretto, em comissão em Presidente Wenceslau, volta a ocupar o seu cargo na Vila Gomes Cardim, 5 Parada da Estrada de Ferro Central do Brasil na capital.

Foi necessária esta fórmula do despacho, porque naquela ocasião (1925) nenhuma professora seria removida para a capital, sem concurso. (Continua na próxima semana).

 Bombardeio de São Paulo - 1924

Notas:

(1) A Revolução de 1924
Pouco conhecida, a Revolução de 1924, segundo alguns estudiosos do assunto, está inserida nos desdobramentos do Movimento Tenentista (Rio de Janeiro, julho de 1922).

Em São Paulo, em 5 de julho, para comemorar os dois anos do Tenentismo, o General Isidoro Dias Lopes, lidera cerca de 1000 homens com o objetivo de enfrentar o governo do presidente Artur Bernardes. Derrotado, o grupo parte em direção ao interior do estado, liderado por Siqueira Campos e por Juarez Távora, formando a Coluna Paulista.

No Rio Grande do Sul, o tenente Luiz Carlos Prestes, também lidera uma ofensiva militar contra o governo, e desloca-se para o estado do Paraná para se encontrar com a Coluna Paulista.

Esses acontecimentos estão diretamente ligados à formação da Coluna Prestes, que depois vai percorrer mais de 25.000 km em doze estados brasileiros até entrar na Bolívia e se dissolver.

Comando da Coluna Prestes

Segundo Antonio Gasparetto Junior, “a Revolta de 1924 foi o maior conflito bélico já ocorrido na cidade de São Paulo. A República Velha brasileira é marcada por ser um período de proeminência de oligarquias políticas que dominavam o país. O principal produto da pauta de exportação era o café, o que garantia poderio político e econômico aos seus produtores. Mas essa fase também é marcada por instabilidades e revoltas vindas de setores da população que desejavam modificar o restrito cenário político.”

Também chamada de Revolta Esquecida, por não possuir a mesma repercussão da Revolução de 1932, foi o maior conflito bélico ocorrido na cidade de São Paulo, pois por 23 dias os revoltosos, que forçam o presidente do estado, Carlos de Campos, a fugir para o interior, atacam a sede do governo estadual. A reação do governo Artur Bernardes foi violenta, tendo ordenado bombardear São Paulo. Os bairros mais atingidos foram a Mooca, o Brás e Perdizes.

As manifestações também ocorrem no interior, com a tomada de prefeituras e conflitos entre grupos rivais.

Sobre a Revolução de 1924, vale a pena ler a seguinte nota:
Depois que as tropas revolucionárias deixaram São Paulo, juntaram-se a pequenos grupos do interior do estado e formaram a “coluna paulista”, que se dirigiu para o oeste do Paraná, onde se fixou até encontrar a “coluna Prestes”, vinda do Rio Grande do Sul, em abril de 1925. Dessa última junção formou-se a “coluna Miguel Costa – Luís Carlos Prestes”, mais conhecida por “coluna Prestes”. Essa empreendeu uma caminhada por grande parte do território nacional, denunciando o que identificava como os problemas sociais e políticos do Brasil, convocando a população para agir sob a liderança de Luís Carlos Prestes. Assim, o movimento tenentista buscava chamar para si a atenção do país inteiro e das autoridades. Dois aspectos parecem explicar o esquecimento que paira sobre os acontecimentos do mês de julho de 1924: a articulação entre memória e os interesses políticos, já que para os legalistas (muitos escreveram obras sobre a Revolução de 1924) não era conveniente alimentar a chama revolucionária que passou por São Paulo, isso poderia ameaçar a manutenção da República, incitando outros grupos a sublevarem-se; e o fato de que a Revolução de 1924 não teve como protagonista a elite paulista, como ocorreu, posteriormente na Revolução de 1932.

Na comparação dos dois eventos feita pelas historiadoras Ilka Stern Cohen e Vavy Pacheco Borges, suas memórias “tiveram destinos opostos”: “a memória de São Paulo em 1924 – vítima, invadida, violada e semi-destruída – e a memória de São Paulo em 1932 – heroína, matriz de uma Revolução”.

Na obra publicada logo após os acontecimentos Narrando a Verdade, ou o que se acreditava ser a realidade dos fatos, o general Abilio de Noronha (12924) confirma a busca pelo esquecimento: "Oxalá que, com a retirada dos rebeldes de S. Paulo na noite de 27 para 28 de Julho, tenham eles levado consigo, a fim de afogarem para sempre, nos pantanaes das regiões inhospitas das margens do rio Paraná, a ideia maldita da rebellião contra o governo da Republica."

Fonte: Arquivo Público Paulista
Disponível em: http://www.arquivoestado.sp.gov.br/exposicao_revolucao/

Cena da Revolução de 1924

E mais:
"Ao contrário do que aconteceu na célebre Revolução de 1932, quando os combates se deram nos arredores da cidade, a pouco lembrada Revolução de 1924 fez das ruas da capital um campo de batalha — 300 000 dos 700 000 paulistanos precisaram deixar sua casa. “É um capítulo sangrento e desconhecido da nossa história”, conta Duarte Pacheco Pereira, autor do livro '1924 — O Diário da Revolução: os 23 dias que Abalaram São Paulo'
Fonte: Veja SP
Disponível em: http://vejasp.abril.com.br/revista/edicao-2158/livro-conta-historia-da-revolucao-de-1924/


Vista geral de Presidente Venceslau

Presidente Venceslau é uma pequena cidade do interior do estado de São Paulo, distante aproximadamente 620 quilômetros da capital. Fundada na primeira metade do século XX, a economia de Presidente Venceslau é baseada na pecuária de corte.

(2) Presidente Venceslau, SP
História
Quando começou a Linha de Ferro Sorocabana estender seus trilhos, em 1918, aqui surgiram os primeiros desbravadores, entre estes, Paschoal Alexandre. Após a conclusão da construção da Estrada de Ferro e designada a estação, esta cidade recebeu o nome de Coroados, porém, em seguida, foi mudado para Perobal, mas, antes de receber a placa de denominação, foi alterado para Presidente Venceslau, em homenagem ao Presidente da República Dr. Wenceslau Braz, isto ocorreu em fins de 1921.

Crescendo o povoado, foi também crescendo a colonização, com o aumento do número de colônias estrangeiras.

Em abril de 1923, chegaram os primeiros alemães, depois italianos e espanhoes. Chegou também o Segundo Regimento de Cavalaria da Força Pública.

No dia 12 de Dezembro de 1925, pela Lei 2085A, foi criado o Distrito de Paz de Presidente Venceslau.

Em 2 de setembro de 1926, pela Lei 2 133, passou a Município, instalado em 13 de maio de 1 927.

No dia 28 de dezembro de 1928, foi inaugurada a Luz Elétrica por Gabriel Bombonato.

Em 30 de novembro de 1938, pelo Decreto n. 9775, foi decretada Comarca de Presidente Venceslau, instalada em 23 de abril de 1939.

Chegaram também, mais tarde, imigrantes japoneses, que desenvolveram a lavoura no Município e formaram a colônia japonesa, e que muito contribuíram para o crescimento de Presidente Venceslau.

Fonte: Prefeitura Municipal de Presidente Wenceslau
Disponível em: http://www.presidentevenceslau.sp.gov.br/Historia-do-Municipio/

 Localização de Presidente Venceslau, SP



2 comentários:

toty maya disse...

Sr Renato

Que emoção!!!!Estive envolvida com a família Wey quando escrevi memorias no meu site
www.conchasmemorias.com.br.
Tenho carta escrita por Elisa,Joao Muniz Barreto e seu irmão Luiz.Consegui fotos com o Sr Nelson Muniz Barreto e Sra Vera Volasco.No item Antigos Moradores,muita coisa sobre sua família.
A carta de João não coloquei completa no site mas se quiser posso enviar.Conta ao meu avô a vida meio nômade que levava.
Tenho fotos das minhas tias avós que foram alunas de Elisa.Não consegui entrar no seu e-mail.
Linda a homenagem que presta a sua bisavô.
Tenho um amigo que resgata a iconografia de Conchas,já vi a
foto da casa onde moraram seus antepassados.Da serraria vc tem a foto no meu site.

Grande abraço.
Toty Maya

Renato Muniz disse...

Foi muito bom receber o comentário de Toty Maya. Recomendo uma visita ao seu site: http://www.conchasmemorias.com.br/site/
Abraços e obrigado.
Renato Muniz Barretto de Carvalho