domingo, 14 de janeiro de 2018

Um velho conhecido





Em 1918, Monteiro Lobato, que já era um escritor conhecido, publica seu primeiro livro: Urupês. O livro, com 14 histórias, retrata a vida no meio rural do estado de São Paulo, em especial no Vale do Paraíba. Antes mesmo da sua publicação, um personagem se destaca nas crônicas de Lobato, o Jeca Tatu, estereótipo do caipira, que chamou a atenção do público, de estudiosos, de artistas e de personalidades como Cornélio Pires e Rui Barbosa. A figura do Jeca acompanhou Monteiro Lobato a vida toda. No fim da vida, ele criou o Zé Brasil, uma “nova versão”, mais politizada, do Jeca, resultado de uma postura de indignação do autor quanto à situação social e política do Brasil. Minha crônica publicada no Jornal da Manhã deste domingo (14/01/2018), “brinca” com o personagem, faz uma releitura, projeta o Jeca para o cenário atual do país. Vamos ler?

Um velho conhecido

Renato Muniz B. Carvalho

Neste ano, um velho conhecido meu faz cem anos, por isso resolvi fazer-lhe uma visitinha. Chamei a patroa, compramos a passagem até Taubaté e fomos, não sem antes providenciar um belo queijo curado para presenteá-lo.

Meu velho conhecido agora tem celular! Bem verdade que não é tão avançado, mas tem sei lá eu quantos “megas”, câmera fotográfica, agenda, despertador, TV e outras tranqueiras, é um bom aparelho. Foi usando essa maquininha mágica que combinamos que iríamos e como devíamos fazer para chegar. Eu lhe informei os horários e ficou tudo acertado.

O compadre Jeca Tatu, apesar da idade avançada, engordou. Quem diria! Ele sempre foi magrinho, gostava de acocorar-se o tempo todo, “pito na boca e faca na cinta”. Já não mora mais numa tapera, já não queima e desmata morros para fazer sua rocinha, já não derruba “jequitibás magníficos e perobas milenares” nem mata “aves incautas”. Hoje, mora num conjunto habitacional, casinha boa, água encanada, luz elétrica, chuveiro de água quente, mas permaneceu com alguns péssimos costumes, um deles é não fazer uma hortinha. Tem certas coisas que nem a idade conserta. Desculpe-me, compadre, mas precisava cimentar todo o quintal?

Casou-se três vezes. Dona Maria, a atual esposa, estava na cozinha quando chegamos, preparava um tutu de feijão com couve picadinha. Uma delícia! A mesa já estava pronta, com pratos e talheres, o velho hábito de comer com as mãos ficou no passado. Contou que os netos faziam faculdade e que um deles ia se formar doutor. A formatura seria no começo do ano e ele já tinha comprado o terno. Chique!

Perguntei pelos velhos amigos, o Manoel Peroba, o Chico Marimbondo... Todos se foram. Manoel ficou doente e morreu na roça, com o coração inchado. Chico, que gostava de usar venenos pra tudo quanto há, pegou uma doença braba. Jeca, por insistência dos filhos, parou de pitar, livrou-se da anemia e melhorou a alimentação, foi isso que fez com que chegasse à idade que tinha. Com certeza! E o velho Lobato, hein? “Pois é, homem bom era aquele”, comentou comigo. “Quando chegou na Buquira, depois da morte do avô, para administrar as terras, errou na mão, se desentendeu com os caboclos, acabou vendendo a fazenda. Anos depois, nos encontramos e foi uma grande alegria. Você sabe que ele até me pediu desculpas? Me chamou pelo nome, Zé Brasil, mas eu sempre fui o Jeca.”

“Como anda a política?” Eu perguntei, ressabiado, queria saber se ele ainda entrava nessa de votar em quem ordenavam. Ele me disse que não, nada disso de achar que “tem alguém que manda em nós tudo”. Ufa!

Ficamos hospedados com eles uns dias, recordando o passado, causos e gentes. Na hora de ir embora ele me contou que sua bisnetinha mais nova se chamava Emília. Fui embora emocionado.

Observação: Em 2018, o Brasil comemora o centenário da publicação do livro “Urupês”, de Monteiro Lobato, onde aparece, pela primeira vez em livro, o personagem Jeca Tatu. O contexto desta crônica, o cenário, os costumes do caboclo e os “amigos” do Jeca, foram inspirados no conto “Velha praga”, que faz parte do livro. O resto é ficção, nem precisava dizer.

Jornal da Manhã, 14/01/2018:

Ilustração do próprio Monteiro Lobato para a primeira edição de Urupês

Monteiro Lobato, ilustração na edição das obras completas, de 1947, da Editora Brasiliense 


José Bento Monteiro Lobato nasceu em18 de abril de 1882, na cidade de Taubaté, no então distrito, hoje cidade, de Monteiro Lobato, e morreu na cidade de São Paulo, em 4 de julho de 1948. Foi um dos mais emblemáticos escritores que o Brasil já teve, criador de inúmeros personagens que marcaram a literatura nacional, como o Jeca Tatu, a Emília, o Visconde de Sabugosa, Dona Benta, Tia Nastácia e tantos outros. Foi empresário, editor, entusiasta do petróleo, escritor ligado à esquerda, ativista político, um intelectual comprometido com a cultura e o povo brasileiros.


Urupês é um cogumelo, também conhecido por orelha-de-pau. Segundo Artur Neves, "Lobato compara o caboclo aos urupês de pau podre que vegetam no sombrio das matas."