quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Meu envolvimento com o teatro



 Primeira cena: envolvimento com o teatro
Teatro. Como é que a gente se envolve com isso?
De repente, sem perceber, a gente está dentro e nunca mais sai. Acredite!
No meu caso, nem sei como me envolvi. Desconfio. Deve ter sido em 1970, ou antes, antes ainda, talvez quando comecei a ler, ou bem antes.
Está bem, eu devo ter ouvido meus pais falarem em teatro. Mais de uma vez. E foi antes de eu aprender a ler. Um deles virava para o outro e dizia: “vamos ao teatro?” O que era aquilo? Era um lugar, um restaurante, era de comer, de brincar, uma reunião de gente séria, uma festa?
Então, antes mesmo de entrar na escola, em casa, era livro pra tudo quanto é lado. Era literatura ali, teatro aqui, era pintura cá, arquitetura lá, era música assim, era dança assado, cinema... Ah! O cinema! Cinema não era teatro, mas chamava muito minha atenção. Meu pai me levava. Solenes, nós íamos bem vestidos para o cinema. Sabiam que meu pai ia de terno? Vestidos para matar a curiosidade, para saciar a fome de arte, de diversão, para encher a cabeça de perguntas. Cinema era atividade noturna, elegante. Ou matinê, às dez horas da manhã, aos domingos. Juntando tudo isso, eu aprendi a ler. A ler de verdade, não a juntar palavras, mas a ler o mundo. Foi tão gostoso!
Depois, na escola, de novo o teatro. Só que veio o pacote todo: a leitura, a matemática, a literatura, os romances, a poesia e sei lá mais o quê. Foi sorte, pois nem toda escola era assim. A poesia veio antes, da poesia passamos ao jogral. “Vamos fazer um jogral”, disse o professor de Português? Jogral, que é isso? Não vá ao dicionário, ele vai te confundir. Eu mesmo te explico. Jogral é poesia falada, quase cantada, em grupo, quase teatro. Entendeu?
“Porque hoje é sábado!” Um fala, outro retruca, vários ressoam: “Por que hoje é sábado!” Muito provavelmente.
Ficou tão bonita a apresentação, vamos mostrar para a sala do lado? Para a escola do outro lado da cidade? No palco do teatro? Hein! No palco? No palco!
Vamos conhecer esse tal de palco?
Pronto, entramos! Estamos no teatro, sem saber – ou sabemos? E não queremos mais sair. Que sala grande? Pra quê uma sala tão grande? Pra te engolir, Chapeuzinho!
Pode subir no palco? Só se for ator. Só se for para apresentar uma peça.
Uma peça? Qual? A do Martins Pena? A do Artur Azevedo? A do Machado de Assis? Machado escreveu peça de teatro? Não foi só o “Memórias póstumas de Brás Cubas”? Ou o “Dom Casmurro”? Peça do Oswald de Andrade? De certo, ele se acha o Rei da Vela, esses Andrades...
E a Maria Clara Machado? Isso é gente ou personagem? Ah, aquela do Tablado! A do “Pluft, o fantasminha”, do “O Rapto das Cebolinhas”, de “A Volta do Camaleão Alface” e o “O Gato de Botas”. Tem teatro para crianças! Que legal! Vamos nessa! A cortina vai abrir!
Fechou o tempo! Teatro é coisa de subversivo. Todo ator é bicha. Toda atriz é puta. Teatro é coisa do passado. O teatro vai acabar. O cinema vai acabar com o teatro. O teatro não convence. O teatro não concorre com a televisão. É o fim do teatro! É o fim da picada! E não é que tem gente que ainda pensa assim? Coitados! Infeliz daquele que nunca foi ao teatro. Tem medo de si. Tem medo de se olhar de perto. Medo!
Medo do público? Olha pela fresta da cortina. Vê se tem gente, vê se veio bastante gente. Se a casa estiver lotada, amanhã a gente faz de novo. E na semana que vem repete. Então, a gente fica em cartaz. Cartaz era um “passaporte que os conquistadores portugueses davam aos comerciantes para negociarem no mar das Índias”. Encontrei no dicionário. Se a gente fica em cartaz a gente ganha um passaporte para navegar, para voar, para ir bem longe, pra onde a gente quiser. Vamos? Para o mar das Índias? Não, ao Teatro! Vamos ao teatro? Um passaporte para a vida!
Teatro, palco mais plateia. Só isso? Não, tem a cena, o proscênio, o diretor, a atriz, o ator, o coadjuvante, o texto, o ato, o monólogo, o drama, a comédia, o conflito dramático, as cortinas, a bilheteria, a marcação, a crise, o choro, o intervalo, a deixa, a ribalta, a bambolina, o camarim, a coxia, em que a gente se esconde atrás, e o Público, com P maiúsculo, o respeitável Público. Tá cheio? Casa cheia? O teatro é um mundo! Cheio de vida!
Viva o TEATRO!
No dia 31 de outubro, a partir das 10h, estarei na Livraria Alternativa (Rua Major Eustáquio, 500), conversando sobre o teatro dos anos 1970 em Uberaba. Venham tomar um café, conversar, relembrar. 



Um comentário:

Laura Louise Richardson disse...

Viva!!!! Gratidão pelo blog incrível, Renato!!!!