quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Fazendas antigas

 

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Renato Muniz Barretto de Carvalho

Muitas famílias do interior do Brasil têm na memória, no coração e na saudade, recordações de uma fazenda antiga. São pedaços, retalhos, verdadeiros recortes de um tempo que nos remete à infância, à descoberta de sabores, de cheiros, de sons, de sensações tão boas que ajudaram a definir personalidades.

Algumas dessas fazendas possuíam casas grandes, avarandadas, espaços amplos. Eram o território dos avós, das tias solteiras, dos mais velhos. Tinham grandes fogões de lenha, serpentinas que esquentavam a água nas tardes frias de inverno, tachos de cobre pendurados nas paredes, porões misteriosos habitados por morcegos e outros bichos do período jurássico, histórias fantásticas e o aconchego das noites claras, de lua cheia.

Quem viveu numa delas, ainda que por breves instantes, quem passou as férias, ou dormiu aí algumas noites, soube o que foi a época de acordar cedo, de levantar de madrugada para ir ao curral tomar leite tirado na hora, de subir em árvores para olhar mais longe, de nadar nos rios e nas cachoeiras. Soube o que representava descascar goiabas para fazer goiabada de pedaço para o ano todo, ralar milho verde para fazer pamonha, mexer o tacho e deliciar-se com a rapa. E se nos sobrou algum tempinho no fim da tarde, deu para ficar quieto num canto da varanda, só olhando a chuva cair…

Reconheça-se o saudosismo e a melancolia. Esqueça-se por um momento a luta de classes. Na verdade, como já se sabe que tudo que é sólido se desmancha no ar, muitas foram demolidas, caíram, apodreceram, perderam suas características originais, foram desmanchadas tijolo por tijolo ou tombaram impiedosamente sob a lâmina implacável de um trator de esteira. De algumas sobraram resquícios, de outras nem sinal e nem um rastro sequer. Foi tudo embora, até as lembranças, as gentes e as assombrações. Perderam-se no tempo, engolidas pela poeira, pelas divisões das terras, pelo loteamento do espaço, pela mercantilização da natureza, pela modernidade inexorável, sabe-se lá qual o seu significado e seus efeitos na vida de todos nós, dos que sobreviveram.

Novos usos e ocupações do solo agrícola foram implacáveis e insensíveis aos apelos do passado. Fazer o quê? Recordar, trazer de volta à vida, ainda que apenas com o recurso das fotografias em preto e branco, que porventura estejam guardadas numa gaveta daquele armário que ainda não foi jogado no lixo. Então, nos resta tentar extrair dos recantos mais inexpugnáveis do cérebro, onde estão arquivados os segredos da adolescência, o que restou do mosaico que constitui as lembranças. Estão todos convidados a subir os degraus e a entrar pela cozinha mesmo, sem cerimônia. Sinta-se em casa. Esqueça o som do teclado e ouça a água do riacho que passa no fundo do quintal, aborreça-se menos com a correria do cotidiano e sinta o cheiro do café quente que acabou de sair do coador de pano e entrar no bule esmaltado. Conceda-se um tempinho para observar o movimento das nuvens e se pergunte sem pressa: será que vai chover hoje?

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2 comentários:

Unknown disse...

Muito bom.
Gostei do texto e concordo com oque você disse nele.

fernando gomes disse...

Texto maravilhoso