segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Brasilino e a independência do Brasil

 


Brasilino e a independência do Brasil

 

Renato Muniz B. Carvalho

 Todo mundo conhece alguém que, após uma breve convivência, some e, de uma hora pra outra, reaparece. Depois, some de novo. Por onde andou? Escondido nas entranhas escuras de uma caverna? Perdido em algum labirinto da Idade Média? Afundado num sofá confortável em alguma casa de montanha? Preso numa cela sórdida? Aí, do nada, aparece para pedir dinheiro emprestado, para pedir votos na próxima eleição ou filar um cafezinho.

Um dia desses, lembrei-me do Brasilino. Conhecem? Ele tem mais de sessenta anos, já rodou bastante, mas ressurgiu com vigor impressionante nos últimos anos. O que será que ele fez para se manter jovem? Na verdade, o cara nunca foi novo, sempre foi um indivíduo corroído pelo tempo, corrompido pelas próprias escolhas, um velho empedernido. Não quero ser injusto, apenas traçar um perfil sincero de alguém que sempre se prestou a papéis duvidosos na cena política nacional. Às vezes, foi o inocente útil, em outras vezes serviu como massa de manobra ou ponta de lança dos velhos caciques da política.

Não se trata de depreciar o meu conhecido, respeito seu jeito de ser, apenas discordamos. Ele sabe o que a sociedade brasileira pensa dele, historicamente falando. Por isso, ele vai e vem, sobe e desce, sempre tentando ocupar um lugarzinho no seio do poder. Neste ínterim, defende seus próprios interesses, se deixa manipular, embora, de fato, sempre tenha se portado como um bajulador convicto.

 Teve oportunidade de receber formação educacional, frequentou salões chiques, foi a restaurantes finos, a cinemas e a salas de teatro. É verdade que comprou poucos livros, leu menos ainda. Não se pode dizer que era um sujeito mal-informado. Talvez mal-intencionado… Sua essência é a ambiguidade, a insegurança intelectual e a dissimulação, daí ter sempre apoiado demandas equivocadas: defendeu o nacionalismo, o bairrismo, a tradição e a supremacia masculina.

 Sua história começou quando, numa bela manhã, acordou acreditando que era feliz. Passou o dia consumindo produtos e serviços de empresas multinacionais, sem admitir que o Brasil fosse dependente do capital internacional. Ao longo dos últimos 60 anos, não percebeu que o país esteve envolto em tristes contradições, que sofreu graves dificuldades políticas, econômicas e injustiças sociais. Nunca entendeu as verdadeiras razões de seus habitantes viverem na pobreza, alguns na miséria, passando fome. Enfim, ele nunca teve olhos para as causas da desigualdade do país, cuja frágil independência vive ameaçada.

Brasilino é o personagem de um folheto muito popular escrito por Paulo Guilherme Martins, com o título “Um dia na vida de Brasilino”, em 1961. De forma irônica, bem-humorada, o autor nos apresenta uma figura ingênua, desligada das questões políticas. Nacionalista, conservador, ignorante das mazelas do país, entusiasmado com o “progresso”, era o típico cidadão alienado de sua época. Passados sessenta anos, Brasilino bate às nossas portas, assombrando-nos novamente com o fantasma do retrocesso.


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