segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Meu avô




Renato Muniz Barretto de Carvalho

Hoje, deu vontade de escrever sobre meu avô paterno, Arlindo de Carvalho. Faz tempo que ele se foi, mas tenho saudades e boas recordações. Ele nasceu em 1903 e, da geração dele, poucos estão vivos. Escrevo para recordar seu tempo e sua trajetória.
Sua família veio para Uberaba no começo do século XX, por causa de desentendimentos numa questão de disputa por terras. Abandonaram tudo para evitar retaliações à família. Chegaram muito pobres e ele, o único filho homem, foi logo trabalhar. Não teve tempo e nem recursos para estudar, mas gostava muito de ler e de fazer contas. Aprendeu o básico da contabilidade e de entregador numa farmácia passou a balconista, a encarregado, a gerente e, finalmente, a sócio em inúmeros empreendimentos comerciais e industriais. Os que conviveram com ele diziam que tinha bom tino comercial. Destacava-se por sua gentileza e honestidade nos negócios. Foi o típico self-made-man da primeira metade do século XX.
Quando veio a II Guerra, já era um comerciante estabelecido, fazendeiro, proprietário de imóveis. Participou ativamente de diversas entidades, tendo sido presidente da Associação Comercial (ACIU), em cujo mandato engajou-se pela ampliação da eletrificação na cidade. Num contexto histórico e numa cidade não muito favoráveis à industrialização, enfrentou barreiras, mas nunca aceitou cargos públicos e nem se envolveu com política partidária. Tinha uma visão empreendedora invejável e possuía um vasto círculo de amizades.
Nos anos 1940, levou meu pai para estudar em São Paulo. Lá o matriculou no tradicional Colégio Rio Branco. Depois do colegial, meu pai foi cursar Direito na Faculdade do Largo São Francisco, voltando a Uberaba no final dos anos 1950, para trabalharem juntos.
Quando eu completei 13 anos de idade, ele me chamou para trabalhar com ele. Mais que depressa, aceitei. Seu escritório ficava na principal avenida da cidade, estrategicamente entre duas agências bancárias. Eu estudava na parte da manhã e depois do almoço ia até o escritório. No primeiro dia ele me entregou uma vassoura e pediu que eu varresse o chão. Levei um susto danado, reclamei, argumentei que um neto dele não devia varrer. Ele foi inflexível e me disse: se eu quisesse ser uma boa pessoa devia ser capaz de desempenhar as mais diferentes funções. Depois, eu devia atender ao telefone, fazer minhas tarefas escolares e, no fim da tarde, ele me ensinaria a usar suas pesadas máquinas de calcular.
No imaginário de seus contemporâneos, que a ele sobreviveram e com quem eu tive contato, ele era famoso por ser um “pão-duro”, não gostava de esbanjar, não era dado a festas e bajulações. A vida o conduziu ao pragmatismo. Nunca prejudicou ninguém e, segundo ele, a ética devia estar ligada ao crescimento econômico. Quando faleceu, num acidente trágico, esse foi o tom das homenagens que recebeu. Quanto a mim, trabalhei com ele até sua morte, em 1970. O aprendizado daqueles dias serviu para a vida inteira.


 Com Carvalho Pinto (4º da esq. para dir.), ex-governador de São Paulo

Antiga Casa Carvalho



Com João Guido, ex-prefeito de Uberaba


Presidindo reunião da ACIU

 Com minha avó, Leonor Borges de Carvalho, e meu pai, Lincoln B. Carvalho
 Com minha avó

Com minha mãe, minha avó, meu irmão e eu.

Texto publicado no Jornal da Manhã, em 25 de outubro de 2015 (http://jmonline.com.br/novo/?noticias,22,ARTICULISTAS,116958). 

Meu avô e minha avó faleceram em 05/11/1970, num acidente de automóvel, no trevo da BR 262 com a BR 050. O trevo, se é que se podia chamar aquilo de trevo, tinha graves defeitos de sinalização.

sábado, 19 de setembro de 2015

Uberaba a Peirópolis de bicicleta





Uberaba a Peirópolis de bicicleta

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Aproveitamos o feriado da “Independência” para fazer um passeio de bicicleta até Peirópolis, comunidade rural do município de Uberaba, MG. O lugar é famoso pela quantidade e qualidade dos fósseis encontrados em seu sítio paleontológico. Passear pedalando é sempre bom, distrai, diverte, faz bem à saúde física e mental. Estávamos em quatro pessoas, sem carro de apoio, só nós, as bicicletas, água e muita vontade de ir mais longe. Do centro de Uberaba, de onde saímos, até o “bairro dos dinossauros” (Peirópolis), percorremos cerca de trinta quilômetros.
O passeio teve muitos pontos positivos, e outros nem tanto, mas o saldo foi favorável, mais acertos do que erros, afinal deu tudo certo e chegamos no horário previsto, sem nenhuma queda e nem sequer um pneu furado. Lá em Peirópolis, tínhamos marcado de nos encontrarmos com pessoas da família para um bom almoço, sem pressa, numa mesa comprida e aconchegante, com comida e assuntos diversos.
Nosso maior erro foi termos saído tarde. Passava um pouquinho das dez horas da manhã quando as rodas das magrelas começaram a percorrer as ruas da cidade em direção à comunidade de Peirópolis. A manhã já estava bem quente quando atingimos a estrada que dá acesso ao bairro.
A trilha, em terra, é uma antiga ligação da cidade de Uberaba em direção à capital do estado, e se constitui de um trecho que foi descartado quando a rodovia BR 262 foi asfaltada, no final dos anos 1960. O traçado sinuoso da antiga estrada cedeu lugar a retas mais adequadas ao trânsito rápido. Pode-se dividir a trilha em duas partes: uma antes e outra depois de um cruzamento com a BR 262. Ainda hoje, a antiga estrada é bastante usada por moradores, trabalhadores e proprietários rurais das redondezas. No último domingo de cada mês, acontece um passeio, já tradicional no calendário turístico local, a “Trilha dos Dinossauros”. Aos domingos e feriados, não é raro encontrar pessoas caminhando na trilha, e o número de ciclistas tende a aumentar.
As notas dissonantes ficaram por conta do lixo jogado no primeiro trecho da trilha, da falta de sinalização, com poucas placas indicativas do percurso, e a ausência de árvores, ou seja, poucos trechos com sombra. Causa desânimo percorrer uma trilha de bicicleta, numa atividade agradável de passeio, de contemplação da natureza, e depararmo-nos com uma estrada cuja finalidade também parece ser o descarte de resíduos. Falta educação ambiental, faltam mais políticas públicas de incentivo ao turismo e às atividades ao ar livre. Faltam mobilização e atitudes, individuais e coletivas, para mudar o quadro de degradação ambiental. Vamos em frente! 
Após cruzarmos a rodovia, a situação melhorou, mas deve-se confessar que também não é muito agradável pedalar por carreadores em lavouras de cana sob o sol do fim da manhã de um setembro bem seco até aquela data.
Os dois trechos da trilha são bem diferentes. A primeira etapa apresenta, nesta época do ano, muita areia, o que dificulta as pedaladas. Em compensação, é plana e ampla. A segunda etapa inicia-se no cruzamento da estrada de terra com a rodovia. A partir daí, há um bom declive até um córrego de águas limpas e cristalinas, o Ribeirão Lageado. É preciso descer com cuidado, mas já não há areia solta na estrada. Depois de uma simpática ponte inicia-se uma subida difícil para quem não está acostumado a pedalar em estradas de terra. Ao atingirmos o topo, com o suor escorrendo, a perspectiva da chegada breve nos remeteu à “síndrome do cavalo velho que apressa o passo ao se aproximar do curral”, ou coisa parecida, e tudo se tornou mais fácil. Conseguimos chegar a tempo!
Percorremos o trajeto em cerca de duas horas e pouco, só com paradas para água e fotografias na ponte do Ribeirão Lageado. Chegamos exaustos, pois não temos mais vinte anos, mas o passeio e o esforço valem a pena mesmo para quem já beira os sessenta.
A comunidade de Peirópolis se prepara há bastante tempo – e a cada dia mais! –, para receber turistas, seja de carro, de ônibus, de bike e a pé. Mas são necessários mais incentivos, mais apoio por parte da administração pública. Placas de sinalização, limpeza, mais árvores nos caminhos e na trilha são pré-requisitos essenciais para cativar os visitantes. De qualquer forma, uma visita ao Museu Paleontológico é obrigatória e bons restaurantes atendem muito bem quem vai até lá para passear, visitar o Museu, almoçar, estudar ou simplesmente descansar.
Para coroar, como se diz por aqui, o belo passeio, a melhor recomendação é saborear um delicioso sorvete na sorveteria da Claudete, que fica próxima ao Museu. A gente até se esquece do sol quente, da poeira e do cansaço. Não dá nem vontade de ir embora!


Serviço:
Na página da internet da Prefeitura Municipal de Uberaba encontra-se a seguinte informação sobre Peirópolis: “Pequena vila situada a 21 km do centro de Uberaba, possui entre os seus principais atrativos um sítio paleontológico com fósseis de 80 milhões de anos, um museu e o Centro de Pesquisas Paleontológicas “Llewellyn Ivor Price”, parque com réplicas de dinossauro em tamanho natural, área para esportes, e uma paisagem caracterizada pela beleza e tranquilidade. Seus doces e licores caseiros são famosos e muito procurados.”






quinta-feira, 9 de julho de 2015

Prezado Senhor Prefeito: as ciclovias




Renato Muniz Barretto de Carvalho

Prezado Senhor Prefeito,

Bom dia! Antes de tudo, devo reconhecer que a vida de um prefeito não deve ser fácil. Então, antecipadamente, peço desculpas por importuná-lo com este texto. Imagino os gestores como o senhor a pensarem o tempo todo nas cidades que administram, a coordenarem o trabalho das secretarias, a receberem vereadores, empresários, representantes das mais diferentes agremiações, dos sindicatos, dos grêmios estudantis, dos clubes, todos sempre de olho nos atos emanados do Executivo, não é?
Sei que não é tão simples ouvir queixas, pedidos, reclamações, os descontentes... Haja paciência e jogo de cintura, hein! E os interesses particulares? As tentações, as pressões... Prefeitos têm de acertar, não é? Se errarem, há o Tribunal de Contas, a promotoria pública, os vereadores, a imprensa, os curiosos, os palpiteiros e a derrota eleitoral. E isso é péssimo para a carreira, para os voos mais altos. São os riscos da empreitada assumida perante os eleitores e os demais envolvidos na peleja.
Está bem, eu sei de tudo isso, ou desconfio, sei que o senhor não tem tempo pra nada, mesmo assim, queria dar uma palavrinha. É sobre as ciclovias.
Ocorre que, a cada dia que passa, mais ouvimos falar em vida saudável, em esportes ao ar livre, em mobilidade urbana, em trânsito humanizado e por aí afora. São tantas as informações, os conceitos novos, que às vezes até nos confundimos. As bicicletas, por exemplo, como meio de transporte, ganham a adesão de uma parte considerável da população, como é o meu caso, mas isso não é um pleito pessoal.
O senhor já teve oportunidade de verificar o grande número de bicicleteiros invisíveis que circulam na cidade? Talvez não, afinal são quase invisíveis, a começar pelos horários em que circulam: ou muito cedo, antes da sete horas da manhã, ou no fim da tarde. Eles vão e voltam do trabalho de bicicleta. Não costumam usar roupas coloridas, nem bicicletas de marcha, nem capacetes, mas são muitos e colaboram para um trânsito melhor. Acostumaram-se a sofrer com os motoristas mal-educados, com a falta de ciclovias, com a falta de bicicletários. Mas persistem!
O senhor sabe que muitas pessoas têm feito dos passeios de bicicleta uma atividade de lazer? Já deve ter observado a quantidade de pessoas pedalando à noite, nos finais de semana? Já reparou nas lojas de venda de bicicletas e de acessórios que aumentam a cada dia? Incrível!
O que o senhor pode fazer para melhorar a segurança desse pessoal? Tudo bem que eles não gastam com passagens de ônibus, com combustível, nem com impostos caros. Ah, mas fazem um bem danado à cidade! Concorda? Pois eles precisam de ciclovias, precisam de mais apoio. É pedir muito? Dá pra tirar um pedacinho das ruas para construir mais ciclovias? Se servir de estímulo, nas cidades onde isso foi feito os gestores passaram a ser bem avaliados. Pense nisso! Previamente, agradeço. Acho que já vi uma foto do senhor pedalando, não quer se juntar a nós um dia desses?

Este texto foi publicado no Jornal da Manhã, em 21 de junho de 2015:  http://jmonline.com.br/novo/?colunas,82,CR%D4NICA+DO+DIA,21/06/2015

Não foi escrito pensando num determinado prefeito, mas em todos os prefeitos e prefeitas dos mais de cinco mil municípios brasileiros, que bem poderiam investir mais em políticas públicas de mobilidade urbana, ciclovias, ciclofaixas e em ações de estímulo e de proteção aos ciclistas e aos pedestres.



terça-feira, 7 de julho de 2015

Um domingo de bicicleta




Renato Muniz Barretto de Carvalho

Nos anos 1970, morei em São Paulo. Eu me mudei para estudar e aprender – são coisas diferentes! No início, a cidade me assustou muito, depois nos tornamos íntimos. Descobri seus becos, suas bocas, suas grandes avenidas, suas ruas de terra, sua periferia, seus prédios altos, suas sombras, seus teatros, cinemas, livrarias, botecos, sua gastronomia semanal e a feijoada dos sábados, que fica pronta desde a madrugada. Quanta diversidade! Assustei-me sempre com seu trânsito caótico e jamais imaginei que um dia poderia percorrer de bicicleta o velho centro, a Praça da Sé, a Praça da República, o Minhocão... Quarenta anos depois, animado pela inauguração da ciclovia da Paulista, resolvi passear por outras ciclovias, e redescobri a cidade!
Minha relação com a cidade vem desde os anos 1960, quando eu vinha a passeio. Não posso dizer que a conheci, pois tudo o que eu via eram imagens rápidas através da janela do carro. A cidade era passagem, em direção ao litoral, ou local de residência de parentes a serem visitados.
Nos anos 1970, foi meu pai que me apresentou à cidade, formalmente. O que eu vi foi uma cidade de terno, uma cidade sisuda, apressada. Essa impressão inicial foi se desfazendo aos poucos, foi se desmanchando à medida em que eu conhecia as outras cidades, que estavam imbricadas numa só, convivendo no mesmo espaço, que se multiplicava assustadoramente, rica, pobre, violenta, com estéticas diversas e curiosas, algumas duradouras, outras tão efêmeras que num segundo estavam ali, à disposição do olhar, e no outro instante tinham desaparecido pra sempre, nem adiantava procurar mais. A solução era prestar mais atenção ao próximo grito, à próxima performance, à próxima esquina. As melhores fotografias dependem da hora certa de apertar o disparador, da combinação de cenário, luz e personagens. Para entender São Paulo, o melhor era usar uma câmara fotográfica. Fui fotografar rostos!
Morador da metrópole, eu precisava percorrer longos trajetos, estabelecer contatos, falar sua língua, perceber seus cheiros e suas cores. Comecei pelas livrarias, onde sempre me senti acolhido, preservado na minha identidade adolescente. Das livrarias aos sebos, às bancas de rua, às feiras livres aos domingos, onde era possível provar todas as frutas sem gastar um centavo. Depois, os cinemas, os restaurantes, desde os que serviam sopas baratinhas até os mais sofisticados. Aprendi os itinerários dos ônibus, os fluxos e os gargalos de um trânsito insano. Aprendi que a cidade era de todos, mas também podia ser injusta, opressora, cinza e poluída. Seu tamanho e complexidade inibiam as bicicletas, os passeios a pé, sua conquista e transformação num lugar democrático e inclusivo.
Ao percorrer a cidade de bicicleta no último domingo, ao lado daquelas cidades que já existiam, eu conheci outra, tão múltipla e tão contraditória quanto, mas diferente. Cidades são assim, são muitas, e devem ser percebidas em toda sua complexidade, de olhos e coração bem abertos.

Texto publicado em 05 de julho de 2015 no Jornal da Manhã: