quinta-feira, 28 de julho de 2011

A escrivaninha

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Quando eu era criança, dividia um quarto com meu irmão. Um dos presentes que mais nos encantou na infância foi justamente uma escrivaninha colocada no nosso quarto. Era uma daquelas antigas, de madeira, porém simples, sem desenhos ou entalhes. Tinha três gavetas laterais e uma gaveta maior sobre um vão onde se encaixava a cadeira.

Meu irmão e eu decidimos dividir as gavetas entre nós. Após certo esforço matemático complexo para nossa idade, cerca de 6 e 7 anos, resolvemos que cada um ficaria com uma gaveta lateral, exclusiva, e usaríamos em comum as restantes, principalmente a central. Nesta, colocaríamos objetos como lápis, borracha, um furador de papel, que nunca usamos, e algumas inutilidades que a memória não arquivou. As individuais seriam usadas para guardar objetos pessoais: canivete, revistas em quadrinhos, jogos, dados, estojos, cadernos e outras coisas assim.

O móvel era mágico. Sentar ali era como entrar num mundo diferente, superior, que nos dava uma força intelectual descomunal. Na verdade, nos sentíamos importantes, capazes de descobrir palavras novas, de encontrar soluções para os grandes problemas do mundo, de elaborar frases inteligentes, de brincar com os números e com equações sofisticadas. Ficávamos estimulados para estudar. Acho que foi um bom truque dos meus pais no começo da nossa vida escolar.

A escrivaninha ganhou importância maior quando acomodou os nossos primeiros livros, que, aos poucos, foram chegando. Nem sei qual foi o primeiro. Deve ter sido o Caçadas de Pedrinho; depois chegaram Peter Pan, Robinson Crusoé, Tarzan, os Grimm, os Andersen (O patinho feio, O soldadinho de chumbo... Que delícia!), e não parou mais.

No começo, cabiam todos sobre o tampo, até que foi preciso inventar uma estante, foi preciso estabelecer uma sequência, inventar uma lógica para arrumar os volumes. Passamos a estudar qual a melhor disposição, como acomodá-los de modo adequado, segundo nossas concepções, nossos valores de então.

Percebemos que ler não era só uma questão de alfabetização, mas de cuidado com os livros, da existência de um local apropriado para fazer a leitura. Entendemos que livros não eram tudo na vida. Percebemos que os livros não existiam por si sós, mesmo sendo único cada exemplar. Entendemos a necessidade de compartilhá-los entre nós. De ler e comentar, de ler e recomendar, de sonhar e de criar nossas próprias fantasias a partir do que líamos.

Um dia, crescemos. E a escrivaninha? Desapareceu. Os livros não. Adultos, cada um de nós levou seu quinhão na partilha dos nossos despojos infantis, para depois acrescentar outros. Ainda hoje, uma das coisas de que mais sinto falta, além de um bom local para leitura — embora seja capaz de ler em qualquer lugar do mundo, até de pé, no meio da rua mais barulhenta do planeta —, é de interlocutores, de alguém com quem comentar uma boa leitura.

A escrivaninha se perdeu no tempo, talvez consumida por cupins, talvez tenha se transformado em outro móvel, talvez tenha virado lenha para esquentar comida de algum pobre faminto. A nós, ajudou a nos alimentarmos de conhecimento e de sonhos.

terça-feira, 12 de julho de 2011

As árvores e nós

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Certos fatos e acontecimentos surgem na minha memória sem quê nem por quê. Um deles me lembra aquela cena do cachorro que morde o próprio rabo e corre em círculos, dando voltas em torno de si mesmo. O pobre coitado deve imaginar que algum outro cachorro lhe morde o rabo, então ele não abre os dentes e gira sem parar, sem saber quem é quem na história. Corre atrás dele mesmo.

Assim são algumas sociedades: giram em círculo, sem saber exatamente que estão mordendo o próprio rabo. E não sabem quem começou, quando e porque se iniciou o processo.

Pensei nisso quando olhava encantado para um grande ipê roxo no meio de uma pastagem deserta. O ipê estava florido, imponente, carregado de lindos buquês, sem uma única folha, e o chão ao seu redor também estava colorido de roxo. Parecia um cenário montado, um arranjo de festa. O ipê dominava a paisagem. Era a única árvore.

Esta é a questão, a solidão da árvore. Olhei bem para um cenário quase vazio, para esta resistência anarquista, e me perguntei: onde estão as outras árvores? Por que este ipê insiste?

O fim das árvores surge sem que muita gente sequer perceba. Ou, se percebe, não diz, não olha, não ouve.

No começo, derrubaram uma ou duas. Depois mais, mais e mais. Derrubaram para fazer casas, currais, pontes. Derrubaram para fazer fogueiras, para esquentar comida, para cozinhar pedras. Desmataram para fazer lavouras, para implantar pastos. E não pararam mais. Uma, duas, milhares. Aos poucos, ou muitas de uma vez só. Com fogo, com produtos tóxicos, com máquinas.

Muitas morreram, sem que nunca se tenha chegado à causa da morte. Acho que morreram de solidão. Árvores não gostam de viver só. Precisam de companhia, de outras árvores e de bichos, de toda espécie: insetos, mamíferos, aves..., como os humanos também precisam.

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As pessoas ainda dizem: “uma só, não vai fazer falta.” Ou então: “melhor é ter o que comer, é poder criar gado e plantar grãos.” E desta forma, elas estão desaparecendo. Não se pode afirmar que é algo que acontece às escondidas. Não, até estatísticas criaram para noticiar seu desaparecimento: “região perde duzentos campos de futebol de mata”. Ou ainda: “desmatamento cresce 50% no norte do país”. Alguém pode alegar inocência ou desconhecimento do fato?

Muitas pessoas brigaram por elas, mas foi inútil. E não foram poucos os que morreram por defendê-las. Caíram também, abatidos, derrubados, apeados violentamente de sua luta.

Quando já era tarde, tentaram plantar, replantar, mas boa parte do conhecimento necessário para fazer com que vigorassem e aumentassem já se perdeu. Plantam em época errada, sem chuva, sem proteção, sem sabedoria alguma. Plantam, quando o fazem, como se cuidar de uma vida fosse algo mecânico, automático, algo simples, e não é. Confundem as coisas ao imaginar que uniformização seja a solução. E muitos não plantam árvores, matas, mas criam desertos, áreas estéreis. Ainda há perspectivas, muitos estudos e práticas tentam reverter a situação.

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E aí está o ipê roxo a nos indagar qual será o nosso destino sem sua sombra, sem suas raízes, sem seu tronco para nos apoiar. Bravo, ele ainda resiste, ainda consegue nos encarar e afirmar: “corram em círculo e vocês não vão chegar a lugar algum.”

quarta-feira, 15 de junho de 2011

O fim do livro

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Impossível ficar indiferente diante do debate acerca do futuro do livro. Vai desaparecer? Vai mudar de formato? Vai existir para sempre? Quantas perguntas! Quantas dúvidas!

Vai desaparecer. Um dia, provavelmente, vai desaparecer. Não é preciso ser muito esperto para perceber que o livro, desde que surgiu, mudou muito. Já foi um rolinho, já foi de papiro, já foi manuscrito, já foi encapado com ricas capas de couro bordadas a ouro, já foi de pano, de plástico e, hoje, existe também no formato digital, ou como livro eletrônico, frequentando o cada vez mais amplo círculo dos equipamentos eletrônicos, como os notebooks, os iPads, os e-books, os cartões de memória, os CD-roms e os pen drives, dentre outros. Nem ouso citar suas possibilidades enquanto arquivo digital, pois são tantas...

É tentador fazer uma comparação com a música e suas inúmeras formas de reprodução e registro, que não a voz humana pura e simples e os instrumentos tocados ao vivo, sem falar no rádio. Antes, foi o tempo dos fonógrafos e dos cilindros, depois vieram os famosos 78 rotações, grossos, rígidos, limitados e os gramofones. Depois surgiram os LP, ou long plays, em 33 rotações, com maiores possibilidades em termos de conteúdo e qualidade da reprodução. Em seguida, num movimento rápido e surpreendente, apareceram as já anacrônicas fitas cassetes, os CDs e os MP3, os MP4... A indústria fonográfica já anunciou o fim do CD de música para algo em torno do ano de 2020. Não gosto de profecias, mas esta é de difícil contestação. A música não vai acabar, com certeza, o que vai mudar é o meio de reprodução.

Assim como a música não vai desaparecer, o livro e a leitura também não. O que vai mudar é o seu formato. E depois de mudados, continuarão mudando, para formas que sequer imaginamos nos dias de hoje. Por que não?

Mas existem diferenças entre as formas de reprodução da música e das ideias, via leitura, que não podem ser deixadas de lado. A música, desde que não seja ao vivo, precisa sempre de um meio mecânico ou eletrônico para existir. Portanto, depende de eletricidade, de uma fonte de alimentação e de uma aparelhagem. O mesmo não ocorre com a leitura, que depende da capacidade física (visual, auditiva ou tátil), do devido letramento, portanto de cognição, e de um objeto muito simples, que não precisa de nenhuma fonte de energia para funcionar, não precisa ser ligado ou desligado, nem de qualquer tipo de aparelho para se reproduzir: o livro.

Como se sabe, o livro pode ser levado a qualquer lugar, a qualquer hora. E que seja um bom livro, bem editado, leve, gostoso de ler. Ele pode ser lido na praia, no ônibus, no banheiro, na biblioteca, nas ruas, nas praças e por aí afora... O livro eletrônico também, apesar da limitação da fonte de energia. Agora, imaginem um caro equipamento desses em dois momentos ideais para uma boa leitura: na praia, junto de um baldinho de areia e outros apetrechos típicos, ou numa cabana, em um fim de semana de pescaria.

Da minha parte, eu sinto o sono vindo e o livro deslizando suavemente pelas minhas mãos até pousar no meu peito. Fecho os olhos e apago. Quando acordo, quem está no chão, quietinho, em perfeito estado, aguardando, sem maiores traumas, o reinício da leitura?

O livro, tal como o conhecemos hoje, vai desaparecer, mas antes vai conviver por muitos e muitos anos, talvez por um tempo geológico inalcançável à nossa vã existência, com outros formatos. Boa leitura e bons sonhos.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A autonomia da Universidade está ameaçada

Hugo Maciel de Carvalho* e Renato Muniz Barretto de Carvalho**

“(...) quero deixar bem claro que o meu protesto contra as arbitrariedades que vêm sendo cometidas pela polícia contra universitários e contra a Universidade, arbitrariedades que constituem mesmo um atentado contra as idéias, em nome das quais, como se publica, foi desencadeado o movimento vitorioso.” Paulo Duarte em carta ao Jornal O Estado de São Paulo, em 15/05/1964.

Um estudante da USP foi assassinado com um tiro na cabeça na noite de ontem dentro da Cidade Universitária, zona oeste paulistana.

Folha de São Paulo – 19 de maio de 2011.

Após o primeiro caso de roubo seguido de morte ocorrido na Cidade Universitária, o reitor da USP, João Grandino Rodas, cobrou maior presença da PM no campus.

Folha de São Paulo – 20 de maio de 2011.

Em carta à reitoria, os estudantes alegam que a perda do colega "escancara" a necessidade de discutir o problema da insegurança dentro da Cidade Universitária.

No texto, reclamaram da iluminação ruim, da pouca quantidade de vigias -60 divididos em dois turnos-, mas em momento algum pede a presença da PM no local.

As reivindicações serão levadas ao Conselho Gestor. A presença da PM no campus será tema de debates de alunos na próxima semana para que se firme uma posição. O assunto divide estudantes.

Folha de São Paulo – 20 de maio de 2011.

A história das tensas relações entre a repressão policial e a comunidade da Universidade de São Paulo é antiga. Remonta aos anos 1940, segundo “O Livro Negro da USP” (1978). Mas foi nos anos 1960, à época da transferência de algumas unidades acadêmicas para a Cidade Universitária, no Butantã, que estas relações deixaram “marcas profundas” (O Controle Ideológico na USP (1964-1978)). Neste momento é que foram construídos novos prédios para cursos que antes eram espalhados pela cidade. Restaram algumas unidades no centro da cidade de São Paulo, dentre elas a Faculdade de Direito, (no Largo de São Francisco), a Saúde Pública, a Medicina e a Enfermagem (todas praticamente no mesmo quarteirão), a Maria Antônia, sem faculdades, o prédio da pós-graduação em Arquitetura, na Rua Maranhão, e o Museu Paulista (no Ipiranga).

Anos depois da construção do campus, a ditadura militar desabou sobre o país e alguém teve, em 1970, a “grande” ideia de colocar a Academia de Polícia na entrada da Universidade.

O problema é que a Universidade (não só a USP) sempre existiu fundamentada em três princípios: liberdade acadêmica, liberdade intelectual e autonomia (acadêmica, intelectual, administrativa, etc.).

A Universidade, no seu Campus de São Paulo, é uma verdadeira cidade, com prefeitura e tudo; precisa ser um local livre, independente, porque senão as ideias, a produção científica, a criatividade, o ensino não funcionam. Essa é a ideia básica original. Assim se criaram e se formaram as grandes universidades do mundo.

A filosofia por trás da universidade é a de que só pode haver conhecimento (ensino-pesquisa-extensão) com LIBERDADE; do contrário NÃO há ensino, mas adestramento, treinamento, repetição, reprodução.

Então, o dilema é: ou temos um ensino livre, autônomo, ou não temos ensino nenhum. Tanto o professor quanto o aluno só podem, hipotética e realmente, aprender num clima de TOTAL liberdade e autonomia.

As universidades no Brasil, em especial a USP, sempre se caracterizaram por trabalhar dentro dos princípios norteadores das grandes universidades do mundo. Justamente por isso a USP sempre foi o “celeiro do conhecimento” brasileiro: é a instituição que mais faz pesquisa, é a instituição que mais tem livros (mais de 1.400.000 volumes), é a instituição que mais publica periódicos, etc.

Mesmo assim, sempre se caracterizou por estar imersa em contradições. Uma delas: mesmo sendo uma universidade pública, sempre foi um local dominado pela elite econômica e social.

Por seus princípios e por suas contradições, a Universidade de São Paulo sempre foi a mais concorrida, a mais visada, mais vigiada pelas forças conservadoras e retrógradas do país e de São Paulo.

Desde antes da ditadura, sempre quiseram “dobrar” a USP, sempre quiseram “quebrar” a USP e os seus professores, alunos e funcionários mais radicais, mais libertários, mais à esquerda. Sempre quiseram submeter a USP aos interesses da elite socioeconômica paulista. E, em grande parte, conseguiram. Como? Diminuindo verbas, manipulando eleições para os cargos acadêmicos, condicionando as verbas para pesquisas aos interesses das indústrias, vigiando professores, estimulando uma “nobiliarquia” para controlar a universidade.

A USP sempre teve fama e tradição de oposição, de rebeldia, em especial a Filosofia (que ficava na Maria Antônia), a Letras, a História, a Geografia e a Ciências Sociais, seguidas pela Arquitetura, pela Geologia e pelo Direito. De um modo geral, todas as faculdades tiveram seus expoentes, seus líderes progressistas. E todas também tiveram os seus reacionários. Dentre os progressistas, a USP teve Florestan Fernandes, Mário Schenberg, João Cruz Costa, Villanova Artigas, Samuel Barnsley Pessoa, entre tantos outros.

A elite socioeconômica (paulista e brasileira) nunca ficou contente com esse pensamento progressista, nunca aceitou as manifestações ostensivas do pensamento progressista (quanto ao pensamento libertário, este jamais mereceu sequer espaço dentro da universidade), a elite nunca engoliu aulas progressistas, rejeita uma produção científica progressista, que só consegue espaço à custa de muita luta. O pensamento da elite é mais ou menos o seguinte: “se nós [eles pensam que são eles] estamos dando dinheiro para a educação, então nós temos o direito de dizer qual educação nós queremos”.

Em alguns países, mesmo naqueles em que as universidades são pagas e tudo o mais, funciona um pouquinho diferente, porque se respeita a autonomia universitária (em grande parte). Ou seja: apesar dos subsídios que as universidades recebem (ou vocês pensam que elas seriam as primeiras do mundo em ensino e pesquisa apenas com o dinheiro das mensalidades?), respeita-se a liberdade acadêmica.

Pois bem, e onde entra (ou não entra) a polícia nessa história?

Durante o regime militar, a resistência dentro da USP foi muito grande contra a ditadura. E a polícia sempre quis dobrar essa resistência. Custou muito manter a autonomia. Foram anos de crimes políticos cometidos pelas forças do Estado contra os estudantes, os funcionários e os professores. Só que a violência do Código Penal nunca foi tão comum dentro do campus como é hoje. Lá pela virada da década de 1970/1980, um caso em especial chocou: um estudante assassinou uma prostituta e jogou o corpo dela num bueiro do campus. O caso realmente chocou. Ou seja, essa violência sempre existiu dentro e fora da USP.

Furtos, assaltos e estupros (principalmente à noite) sempre ocorreram (AVISO: isto não é uma escusa, ok? Continuem lendo). Mas, pouco a pouco, com a orientação política de retirar as verbas paulatinamente, os investimentos em iluminação, em segurança, etc. foram diminuindo. Além disso, as classes médias e populares (ainda que em menor número) foram chegando, ao mesmo tempo em que parte das classes média e rica se dirigiu às universidades particulares ditas “de ponta”. Ou seja, com isso, a USP foi perdendo o interesse para a elite paulistana. Afinal, para quê investir tanto numa instituição que só causa “problemas”?

É um processo contraditório, pois a elite socioeconômica precisa do conhecimento produzido dentro da universidade pública. Então, não pode retirar tudo de uma vez. Por isso, tira dos mais pobres: dos que frequentam cursos noturnos (iluminação e segurança), dos cursos que dão menos retorno para as indústrias (Letras e demais ciências humanas “não aplicadas” reconhecidamente carecem de estrutura básica). E passa a haver financiamento pesado (via fundações ou outros mecanismos miraculosos) para cursos como Economia, Engenharia, Geologia, Medicina, Direito (desde que o pessoal faça tudo “direitinho”, conforme o script); passa a existir uma USP Leste com seus currículos contestáveis (afinal: por que mesmo não criar um curso de Direito na Zona Leste?).

Mas e a polícia? Bem, “deixaram” chegar a esse nível de insegurança, a essa “insegurança” do tipo que a mídia adora explorar, a fim de criarem (estão criando!) o clima perfeito para a entrada da Polícia. A “comunidade pede segurança”. Será que é isso mesmo? Essa é a solução? Ou essa é a solução que “eles” querem que a Universidade engula goela abaixo? Se a polícia entra uma vez, se instala, não vai sair nunca mais. E vai ser fácil controlar o que “eles” quiserem. Greve? Não pode. “Manifestação”? Não pode. Mudar algo de lugar, não pode...

Paranoia ou lições do passado? Dá pra confiar na polícia brasileira? Por que permanecem os casos de tortura? Por que “eles” têm tanto medo da apuração dos casos ocorridos no período da ditadura militar?

A solução, a ser discutida democraticamente com toda a comunidade acadêmica, seria investir na segurança interna, num sistema de transporte coletivo e saudável (mas não, porque, “afinal”, transporte coletivo é “coisa de pobre”). Investir em iluminação (mas não, porque isso é um custo desnecessário para bancar quem frequenta os cursos noturnos depois de um dia inteiro de trabalho). Investir em educação e em prevenção (mas não, porque isso é algo em que não se acredita). A elite socioeconômica (que detém o controle político do Estado de São Paulo) fatura é com o medo, e o que sabe fazer é o “controle”, a punição: são positivistas, autoritários, não gostam e não costumam ouvir nem discutir com a comunidade.

O que se quer é segurança, mas não uma intromissão da polícia no campus. As pessoas se preocupam com a situação de todos dentro do campus — alunos, funcionários, professores e pessoas não ligadas à Universidade, como os ciclistas que treinam diariamente nas ruas do Campus, como as mães das crianças que ficam na creche ao lado da Faculdade de Educação, como todas as pessoas que vendem camisetas e gibis perto do bandejão — todos os que frequentam a USP precisam de segurança, sim. Mas a solução não é entregar o controle da segurança da Universidade para a Polícia Militar.

É melhor que o campus seja mais bem iluminado, que haja um novo sistema de transporte (porque o atual é péssimo, baseado nos veículos particulares e individualizado). Mas o Estado quer é terceirizar as coisas, pois é assim que se faz caixa dois. Eles não acreditam no serviço público, pois sucatearam o serviço público; eles não querem pagar bons salários, nem contratar mais gente... No fundo, a elite socioeconômica não quer uma Universidade, mas uma “instituição carcerária”, que seja parte da “cadeia” de (re)produção do sistema.

* Ex-aluno do curso de Direito e atual aluno do curso de Letras.

** Ex-aluno do Curso de Geografia.

Também publicado aqui: http://transindisciplinar.blogspot.com/


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Áreas verdes urbanas

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Certa ocasião, nos anos 1970, numa grande cidade da América Latina, o poder público municipal resolveu remodelar totalmente uma antiga praça.

Como ocorre com muitas praças por esse país afora, esta também tinha uma longa história. Antes de ter sido transformada em praça, foi uma chácara, depois local onde aconteciam competições esportivas, depois espaço de realização de feiras-livres e estacionamento de automóveis.

A cidade cresceu, sua população aumentou, e aumentou muito também o número de veículos nas ruas, que ficaram apertadas para tanto carro. Novas habitações contribuíram para o adensamento urbano da região e novas avenidas, viadutos e outros equipamentos urbanos foram implantados.

Tudo isso, a pressão dos empreendedores e a perspectiva de maiores ganhos, aliado à vaidade e a outras expectativas dos administradores, conduziu a um novo projeto para a praça. Certas concepções existentes naquela época valorizavam muito o concreto, as construções com cimento e aço, identificados com a modernidade, com o progresso e o futuro.

Muito concreto e poucas árvores levaram o povo e a imprensa a apelidar a praça de “monstrengo arquitetônico”. E ela tornou-se motivo de discórdia, desprezada pela população, pretexto para críticas à administração. Durante 30 anos, tentou-se de tudo um pouco para amenizar os erros cometidos na fracassada praça, a intervenção desastrosa. No ano 2000, chegou-se à conclusão que o melhor a fazer era demolir tudo e tentar construir uma nova praça, com uma nova concepção, mais adequada aos nossos tempos, aos anseios da população por mais áreas verdes, por espaços livres para lazer e descanso.

Nesse ínterim, há um episódio pouco conhecido e pitoresco que vale a pena ser contado. O tempo transcorrido facilita a mistura de memória e lenda. Já nem sei se aconteceu de fato ou se é devaneio meu.

Logo que a nova praça foi inaugurada, recebeu muitas críticas pela ausência do verde, de vegetação, de jardins. A população chegou a se mobilizar, a reivindicar um novo projeto. Mas não era da índole das administrações daquele período aceitar críticas, não tinham o costume, saudável e democrático, de dialogarem com a comunidade. Tanto as críticas e manifestações incomodaram, até que um prefeito disse que tinha a solução: mandou pintar de verde o concreto. Pois se era verde o que a população queria...

Depois do ano 2000, ainda arrastou-se por mais dez anos a decisão pela demolição e a revitalização do local e do entorno. A população da cidade foi quem mais perdeu com a teimosia e a recusa dos administradores em dotar a praça de jardins, de árvores e de cuidar da praça como deveria. No final da década de 1980 e nos anos 1990, o local se deteriorou num ritmo impressionante. A praça tornou-se local de atuação de assaltantes, com ocorrência de vários furtos, roubos, consumo de drogas e outras mazelas sociais.

As áreas verdes cumprem diversas funções nas cidades, muitas delas de caráter subjetivo. De qualquer forma, trazem benefícios à população. Contribuem para a redução da poluição, ajudam a diminuir a velocidade dos ventos, reduzem a poluição sonora, propiciam o sombreamento, dão abrigo à fauna, principalmente aos pássaros, interferem positivamente no balanço hídrico, influenciam as temperaturas, absorvendo os raios solares, e valorizam a região. Desde que bem cuidadas.

Cabe ao poder público garantir que essas áreas cumpram suas funções. Para tanto, devem responsabilizar-se por sua manutenção e conservação, estimulando a população a envolver-se com o local, preservando equipamentos, bebedouros, banheiros, mobiliários. Deve estabelecer parcerias com outros órgãos, visando o desenvolvimento de atitudes positivas de cuidado e co-gestão dos bens públicos. Essas áreas são, na essência, públicas, e assim devem continuar a ser.

As cidades brasileiras, de modo geral, têm poucas áreas verdes urbanos. Mas a situação está mudando. Muitas administrações, caminhando na direção da construção de uma cidade acolhedora, de um ambiente urbano saudável, têm contribuído para mudar um panorama anteriormente árido e hostil.

As cidades localizadas na região do Cerrado merecem uma atenção especial, pois aí a estação seca é bem pronunciada, a umidade relativa do ar cai muito no inverno tropical. A baixa umidade chega a prejudicar a saúde das pessoas. Daí maior a importância das áreas verdes para atenuar os efeitos da secura. Quanto mais áreas verdes, melhor.

Exemplos tristes e vexatórios como o da praça mencionada no início, deveriam servir de lição para que as administrações ouvissem a opinião pública antes de realizarem intervenções urbanas, ainda mais se o assunto são áreas verdes. Senão, daqui a pouco veremos algumas prefeituras pintando o asfalto de verde, instalando caixas de som que imitam o som de pássaros nos postes de luz e comprando, com o dinheiro público, é claro, árvores de plástico reciclado para serem “plantadas” nas vias públicas.

Publicada originalmente no Jornal Clarim. (http://clarim.net.br/colunistas/colunista/4).

sábado, 28 de maio de 2011

DIA DO GEÓGRAFO

No dia 29 de maio comemora-se o Dia do Geógrafo. A profissão de Geógrafo foi regulamentada pela Lei n° 6.664, de 26/6/79. A data foi escolhida porque no dia 29 de maio de 1936 foi criado o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O conhecimento geográfico é tão antigo quanto o próprio ser humano. A evolução moderna da ciência geográfica ocorreu no final do século XVIII e início do século XIX, a partir do trabalho realizado por exploradores, naturalistas e pesquisadores como Humboldt, Karl Ritter e outros.

Em Uberaba, o primeiro curso de Geografia foi criado no ano de 1949, pelas irmãs Dominicanas. O reconhecimento aconteceu em 1951, e este foi um dos primeiros cursos de Geografia do Brasil Central. Nesse tempo todo, destaca-se, pelo seu carinho aos alunos, dedicação e conhecimento, a figura da professora Ruth Gebrim, a irmã Loreto, doutora em Geomorfologia na França e responsável pela formação de inúmeros profissionais da geografia e da engenharia hoje espalhados por todo o território nacional.

Para exercer a profissão de geógrafo é preciso ter registro no Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA). Este profissional atua em estudos ambientais, sociais e na docência. Participa de equipes multiprofissionais em trabalhos de planejamento e análise sócio-ambientais. Estuda os diversos aspectos físicos da Terra, os aspectos relacionados à organização sócio-espacial da sociedade e as relações da sociedade com a natureza.

O mercado de trabalho para o geógrafo tem crescido diante da necessidade da participação deste profissional nos estudos que envolvem as questões ambientais nas esferas públicas e particulares.

Parabéns a todos os geógrafos, aos professores de Geografia e aos estudantes de Geografia, a todos os que vivem a luta diária e árdua em busca de um país melhor para todos os brasileiros, que lutam por um espaço de vida em que o respeito à natureza signifique também respeito e consideração às pessoas.

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Geografia por um novo mundo: economicamente viável, ambientalmente sustentável e socialmente justo. Ou, como disse Rosa de Luxemburgo: “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.”

(Imagem retirada de: http://semlinguanaspapas.blogspot.com).

terça-feira, 17 de maio de 2011

Feira de livros em Poços de Caldas - MG

No começo de maio, visitei a VI Feira Nacional de Livros de Poços de Caldas (FLIPOÇOS).

Com uma presença marcante de autores e de público, realizada no Espaço Cultural da Urca, patrimônio cultural e arquitetônico da cidade de Poços de Caldas, a Feira contou com inúmeras atrações e grande diversidade de expressões culturais ligadas ao mundo do livro. Apresentou-se e discutiu-se, além do livro, nosso velho conhecido, a literatura de cordel, o livro eletrônico, novos autores, os mangás (quadrinhos japoneses) e novas formas de se chegar ao leitor e de sensibilizá-lo para a leitura.

A literatura infanto-juvenil tem merecido uma atenção especial nesses eventos. E lá estavam, circulando pela Feira, muitas crianças e os seus pais, dispostos a comprar algo para os filhos. O interessante é observar estas crianças, e os respectivos pais, mães, avós, tios, tias, padrinhos e professores, folheando, ávidos, livros de todo formato, de todo jeito, de todo preço.

O que se espera é que o livro não se transforme apenas num mero objeto de consumo, numa reles mercadoria que se leva para casa devido aos apelos do marketing, de capas bonitas, das ilustrações e dos autores com espaço privilegiado na mídia. Não que capas bem produzidas e belas ilustrações não sejam essenciais, mas livros são mais do que isso.

Só o fato de comparecerem tantas crianças e adolescentes num evento assim, de terem contato com os livros, com os autores, com as editoras, já é um ganho, mas é preciso ir mais longe. É preciso questionar e tomar cuidado com jogadas como as que empurram “goela abaixo” livros de gosto duvidoso, de pouca ou nenhuma qualidade, e que não valorizam a cultura local e nacional. Ao que parece, vale uma antiga máxima: tem espaço para todo mundo, mas é preciso cuidar para que a concorrência não seja desleal.

Muitos se comportam numa feira de livros como se estivessem num shopping center, e consomem, insaciáveis, apenas produtos “enlatados”, como um “fast food” da literatura. Não se trata de incitar linguagens intelectualizadas ou discursos complexos, mas de estimular a boa produção cultural, que os autores brasileiros e latino-americanos têm feito, e que tão pouco espaço têm merecido diante de agressivos projetos editoriais das grandes empresas. Já observaram que nas listas dos livros de literatura mais vendidos, de cada 10 livros indicados, apenas um ou dois são de autores brasileiros?

A discussão é antiga, pertinente e muito atual ainda, mas persistem práticas deploráveis no setor. Dentre elas, pode-se citar a compra descarada de espaços “disfarçados” na mídia e os vínculos suspeitos entre agências de publicidade, imprensa, editoras e governo, que cerceiam a abertura do mercado editorial para novas propostas e para as pequenas editoras.

Bem vindas as feiras e bienais de livros em todos os municípios brasileiros! Cumprem o papel de aproximar leitores e autores, de apresentar ao público as ações do mercado editorial para valorização do livro e da leitura, e de possibilitar o acesso ao livro para mais gente, principalmente crianças e adolescentes.

O que se espera é que, além da realização das feiras, do espetáculo, das presenças midiáticas de grandes palestrantes, ocorram também ações antes e depois dos eventos. Ações que permitam discussões nas escolas, abertura de espaços na imprensa local para entrevistas, resenhas, biografias, e o debate cultural, do centro à periferia, com o intuito verdadeiro de democratizar o acesso ao livro e à leitura.

A Feira Nacional do Livro de Poços de Caldas, a FLIPOÇOS, aconteceu entre os dias 30 de abril a 8 de maio, no Espaço Cultural da Urca, centro de Poços de Caldas, MG. Com homenagens, palestras, cursos, gastronomia, concurso literário, exposição e venda de livros, a Feira contou com a presença de inúmeras editoras, livrarias e bom público, da cidade e da região. Não ficaram de fora os autores do momento, da chamada “literatura sobre vampiros”, a literatura infanto-juvenil, mencionada acima, livros de gastronomia, de arte e de auto-ajuda.

O destaque da Feira ficou por conta do escritor Ariano Suassuna. Sua palestra, no dia 7 de maio, às 20 horas, foi, sem dúvida, a mais concorrida. Leitores e admiradores de Poços de Caldas, de cidades vizinhas e até de localidades mais distantes, lotaram o auditório principal e um auditório com telão. É sempre bom ouvir Ariano Suassuna, um grande contador de histórias, dono de memória privilegiada, um dos grandes nomes da literatura e da cultura brasileira.

Nas fotografias abaixo: a entrada da Feira; junto com o poeta do Cordel, Izaias Gomes de Assis; com o autor moçambicano, radicado no Brasil, Davambe; e o poeta garçom, da cidade de Resende, RJ, o Osmar Nonato, que gentilmente percorria os corredores da feira oferecendo poesias numa bandeja.

 

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Arte e natureza

CEA - SÍTIO DA PEDREIRA

O Centro de Educação Ambiental Sítio da Pedreira recebeu um grupo de artistas uberabenses no domingo, dia 15 de maio. Os objetivos da visita foram apresentar o CEA aos artistas e discutir possibilidades de intervenção artística em relação ao meio ambiente. O professor e escritor Renato Muniz ressaltando a importância da visita declarou que "o CEA tem como um dos seus eixos de atuação valorizar e abrir espaço para diferentes leituras do mundo".

Da Coluna Bastidores, por Marco Túlio Reis, Jornal de Uberaba, em 17 de maio de 2011.


ARTISTAS REÚNEM-SE NO CEA SÍTIO DA PEDREIRA

Na tarde de domingo, dia 15 de maio, reuniram-se no CEA Sitio da Pedreira artistas plasticos, musico e poetas. O tema da reunião foi: como é possivel o diálogo da ARTE COM A NATUREZA. Neste sentido o próprio local de encontro foi um incentivo as discussãoe pois o Sitio da Pedreira tem como objetivos a discssão desta relação homem-natureza.

Do Blog da Professora Elisa Carvalho (http://elisaprofessoradearte.blogspot.com)


segunda-feira, 16 de maio de 2011

UNIVERSIDADE POPULAR: OS NOVOS PASSOS DA CAMINHADA...

 

Por Jorge Bichuetti (Publicado no Blog Utopia Ativa, em 16 de maio de 2011).

Universidade Popular Juvenal Arduini - Upop-JA - educação em movimento na caminhada pela libertação. Arte-alegria-criticidade-diálogo-escuta-experimentação-inovação... Sonho e poesia...

Aqui, hoje postaremos os Espaços Coletivos de Produção com um pequeno resumo do conteúdo e já iniciaremos as matrículas, explicando que todas as atividades geram certificados e irão, igualmente compor com formações mais aprofundadas para os que desejarem ir tecendo um conhecimento maior...

ESPAÇOS COLETIVOS DE PRODUÇÃO:

1. MARXISMO. Agenciador: Renato Muniz

Carga Horária: 20 horas Duração: um semestre

(6 hs presenciais; 8 hs de estudo dirigido e 6 de trabalho na comunidade)

Conteúdo:

* O marxismo: contexto histórico (das origens à Comuna de Paris)

* Marx e Engels: vida e obra

* A produção historiográfica e o marxismo

* Marxismo e natureza

* Marxismo ontem e hoje: no Brasil e no mundo

2. DESINSTITUCIONALIZAÇÃO E PRÁTICAS SOCIAIS Agenciador: Jorge Bichuetti

Carga Horária: 20 horas Duração: um semestre

(6 hs presenciais; 8 hs de estudo dirigido e 6 de trabalho na comunidade)

Conteúdo:

* As instituições totais e a sociedade disciplinar (a lógica do modelo asilar)

* Processos de desinstitucionalização e práticas sociais inovadoras-instituintes

* Práticas Sociais, inclusão e cidadania na Sociedade Mundial de controle. Novas práticas sociais

3. CUIDADO E CLÍNICA DA VIDA: A CAIXA DE FERRAMENTAS Agenciadores: Celso P. Macedo e Odila Braga

Carga Horária: 20 horas Duração: um semestre

(6 hs presenciais; 8 hs de estudo dirigido e 6 de trabalho na comunidade.)

Conteúdo:

* A clínica e o cuidado: da exclusão ao novo cuidado-acolhimento

* Caixa de ferramentas e uma clínica inventiva e humanizante

* Novos cuidados e o exercício no cotidiano de práticas inventivas de acolhimento e emancipação

4. AMBIÊNCIA: ECOLOGIA E VIDA Agenciador: Sumaia Debroi

Carga Horária: 20 horas Duração: um semestre

(6 hs presenciais; 8 hs de estudo dirigido e 6 de trabalho na comunidade)

Conteúdo:

* O cuidar de si e do meio ambiente.

* Sustentabilidade e novas subjetividades

* Ecologia - As três ecologias: ambiental, social e mental...

Todos estes espaços coletivos de produção serão ministrados/vivenciados nos segundos sábados de cada mês, com início em junho. Horário: 13:30.

***

Das 14:30 às 15:30 ocorrerão oficinas:

a. Arte;

b. Como trabalhar com o povo;

c..Comunicação e jornalismo;

d. Ética e vida.

(Estes trabalhos também serão certificados e comporão os currículos).

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GRUPO DE ESTUDO DA OBRA DE JUVENAL ARDUINI

Horário: das 19:00 às 21:00 horas. Nas terças-feira da semana que se dá o encontro mensal.

Inscrições no Bog Utopia Ativa: http://jorgebichuetti.blogspot.com/search/label/universidade%20popular

O caminho é a travessia onde a vida acontece... O sonho é uma ponte que nos dá no hoje o porvir e o devir...

domingo, 8 de maio de 2011

Diálogo produtivo na Escola Bernardo Vasconcelos




A Escola Estadual Bernardo Vasconcelos, de Uberaba – MG, nos convidou para uma fala com os professores, na manhã de sexta-feira, dia seis de maio. Também estavam presentes alguns pais de alunos.

Conversamos, por quase uma hora, sobre ecologia, educação e outros assuntos de interesse dos presentes.

Durante minha fala, fiz uma provocação: sugeri aos professores que trocassem o “vermelho” do boletim dos alunos pelo “verde”. Apesar de me declarar admirador da cor vermelha, por tudo o que ela representa historicamente, eu afirmei que uma educação “verde” deve levar em consideração diferentes identidades, deve respeitar saberes e histórias, e deve estimular, cada vez mais, a participação e o envolvimento de todos no processo educacional, invertendo antigas equações de poder que têm dificultado transformações urgentes e necessárias na educação brasileira.

A Diretora, Regina, que abriu a escola para a comunidade nesse dia, disse que iria plantar um roseiral no jardim da escola e estimular as atividades práticas numa horta de verduras. Quanto ao roseiral, disse: “De rosas vermelhas também”, aceitando a minha “provocação.

Mara falou no final e destacou a necessidade de todos buscarem, juntos, soluções inovadoras para velhos problemas de disciplina, de desânimo, do chamado baixo rendimento escolar. E reforçou a importância de os professores se inspirarem no meio ambiente, na mata, no espaço natural para conseguirem “dar conta do recado”. E, com muita sensibilidade, ouvir mais o que cada um quer para o seu crescimento pois é a partir desse diálogo que todos se dão e recebem mais atenção.

É isso aí: recado dado!




quinta-feira, 5 de maio de 2011

Viva a vida!

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Certa ocasião, num encontro na Universidade de Salamanca, em 1936, um general espanhol, partidário do fascismo, admirador de Francisco Franco – o ditador espanhol, de triste memória –, ressentido com a resistência e o desejo de autonomia dos bascos durante a Guerra Civil Espanhola (1936 – 1939), bradou em alto volume as seguintes palavras: “Viva la muerte!”. E completou: “Abajo la inteligencia!”. Típica reação de quem usa a força e a opressão para resolver diferenças políticas e ideológicas. Como resultado desta maneira de ver o mundo, o povo espanhol amargou uma terrível ditadura até os anos 1970. O próprio país só viria a retomar o desenvolvimento pleno e as liberdades civis com a volta da democracia e a morte de Franco, em 1975.

Foram mais de um milhão de mortos e milhares de exilados. Tristeza e pobreza marcaram a Espanha neste período. Foi a vitória de Hitler e de Mussolini, do fascismo e do nazismo mesmo após sua derrota na Alemanha e na Itália em 1945.

A humanidade respirou aliviada ao final da Segunda Guerra Mundial, sentiu-se melhor com o fim da Guerra do Vietnã, comemorou o fim dos regimes ditatoriais na América Latina e torce pelo fim dos ditadores africanos e asiáticos que ainda sobrevivem. O mundo vive uma nova fase, em que não há mais lugar para regimes opressores, para a tortura, para a corrupção, para a existência de mortes sem sentido, para guerras entre irmãos, para a miséria. Mesmo assim, alguns ainda insistem em permanecer neste caminho. Muitos continuam no poder, outros defendem sua crença no obscurantismo por outras vias. O mundo mudou, e continuará mudando, mas alguns insistem em retroceder, em voltar a um passado de violência e terror.

A humanidade quer viver, e viver bem, o que significa viver em paz. A maioria defende a vida como bem maior de todos os povos, peleja pelo direito a uma vida saudável, por uma vida sem medo, sem fome, sem tragédias sociais. Algumas concepções, entretanto, tropeçam no rumo contrário, caminham trôpegas em direção à opressão da mulher, contra a diversidade cultural, contra a liberdade sexual, contra a livre expressão artística e contra o patrimônio natural. O mundo já não as quer mais, já não as aceita mais.

Um mundo em que não há mais lugar para afirmações como a do general espanhol, não deve admitir a morte como solução para conflitos ideológicos ou de qualquer outro tipo. Não se deve concordar com os métodos violentos defendidos por radicais religiosos, seja de qual crença for, não se deve concordar com métodos tirânicos de ditadores, seja de qual ideologia for. Igualmente, até por uma questão didática, não se deve admitir que a morte, de quem quer que seja, até mesmo do mais terrível assassino, seja colocada como solução para se resolver pendências de qualquer natureza, até mesmo se causaram comoção internacional. Ou defendemos a vida, acima de qualquer coisa, ou aceitamos um mundo pior, triste, retrógrado, inculto, infeliz. Viva a inteligência! Viva a vida!

Publicado no Jornal Clarim, de Araxá, MG. http://clarim.net.br/colunistas/colunista/4

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Bienal do Livro de São José dos Campos

 

As feiras e bienais de livros estão cada vez mais presentes nas cidades brasileiras. Além das capitais, acontecem em outras cidades, grandes ou pequenas, com o intuito principal de divulgar o livro e estimular a leitura. Caracterizam-se, também, por oferecerem uma excelente oportunidade de leitores, autores, editores e livreiros se encontrarem.

São José dos Campos, cidade paulista localizada no Vale do Paraíba, realiza sua primeira Bienal do Livro, de 08 a 17 de abril de 2011. Segundo o prefeito, Eduardo Cury, “Durante 10 dias, São José dos Campos, terra do poeta Cassiano Ricardo, será a cidade dos livros e estará de portas abertas não só aos 40 mil estudantes da nossa rede de ensino, mas a todos os cidadãos.”

Pois lá estivemos, Mara e eu, a convite da Giz Editorial e da Selecta Livros, no dia 13 de abril. Foi uma tarde gostosa, no meio de crianças e de livros. As crianças, curiosas e interessadas nos livros, acompanhadas por dedicados professores, receberam um incentivo extra da Prefeitura: o “cheque livro”.

Confiram, abaixo, algumas fotos tiradas pela Mara no estande da Selecta Livros.

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segunda-feira, 11 de abril de 2011

Visita ao Colégio Jean Christophe

 

Mara e eu visitamos, na manhã de hoje, 11 de abril de 2011, o Colégio Jean Christophe, de Uberaba - MG. Fomos recepcionados pela diretora Célia Peres, conversamos com os alunos e vimos um belo mural confeccionado a partir das indagações e discussões relacionadas à leitura do livro “Os bichos são gente boa”.

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O Colégio Jean Christophe valoriza e estimula a leitura em seus projetos e programas, além de sempre trabalhar temáticas atuais com os alunos. Esse foi o caso do mural, em que eles recriaram as histórias do livro e ao mesmo tempo se dedicaram a reflexões sobre as Florestas. A ONU declarou 2011 como o Ano Internacional das Florestas para estimular sua preservação.

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Segundo a diretora Célia Peres, o Colégio Jean Christophe faz questão de receber escritores para diálogos sobre a obra literária proporcionando aos alunos que conversem, façam perguntas e dêem depoimentos sobre a leitura realizada, numa dinâmica gostosa e produtiva para todos.

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Conversando sobre as histórias do livro, ficamos sabendo que os alunos estão montando uma ONG em defesa das florestas. É importante ressaltar que as florestas cobrem mais de 30% de toda a área terrestre do planeta e são responsáveis pela sobrevivência de mais de um milhão de pessoas e por cerca de 80% da biodiversidade existente na Terra. O Cerrado brasileiro apresenta formações florestais típicas, como o cerradão, caracterizado pela presença de inúmeras espécies arbóreas, como ipê, angico, copaíba, pequi, aroeira, dentre outras.

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Um novo encontro foi marcado para o Centro de Educação Ambiental Sítio da Pedreira, numa programação que ampliará as reflexões sobre o meio ambiente, práticas sustentáveis, visita ao minhocário do Sítio e trilha ecológica.

Publicado originalmente no Blog do CEA Sítio da Pedreira.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Os tiros de Realengo

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Tragédia numa escola do Rio de Janeiro. Crianças mortas. Comoção nacional. Afinal, quando é com os nossos, o caso se complica. A polícia foi bastante ouvida, psicólogos também. Jornalistas praticamente acamparam no local. Com cenas comoventes, insistem em nos convencer de alguma coisa, de alguma culpa.

Não tenho como julgar perfil psicológico, muito menos arrisco meros palpites para saber como e porque a sociedade vai se tornando cada vez mais violenta. Nem vou especular porque um rapaz consegue entrar numa escola atirando com tanta facilidade, apesar de todos os esforços em segurança pública, de tantas grades e aparatos similares.

Mas quero falar de educação e de escola. Por que a escola é o local preferido deste tipo de ação? O que se passa dentro desta instituição que a torna alvo de tantos questionamentos e violência?

Menos importa saber a origem das armas e sobre como se aprende a atirar, mas desvendar a origem de tanta raiva e desajuste e qual o papel da escola nisso. A família, a sociedade e a escola não perceberam isso antes? Que mágoas e frustrações guardava esse indivíduo que essas instituições não conseguiram resolver? As respostas estão mais na escola do que no indivíduo. A escola falhou em algum momento. Não deve ter sido fortuita a escolha deste local para a ação, para o massacre.

Sem desconsiderar outros fatores, é preciso parar para pensar um pouco naquilo que a sociedade considera educação e função da escola. Nunca se defendeu tanto a “educação”, nunca se fez tanto discurso sobre a importância dela. Mas a prática está direcionada para aspectos relacionados à punição, às multas, ao controle, à repressão. Então, de que serve a educação? Há uma contradição que precisa ser exposta de forma urgente. O discurso é contraditório, a distância entre intenção e gesto é cada vez maior.

Algo não vai bem neste ambiente que deveria ser um lugar de alegria, de descobertas maravilhosas, de relacionamentos saudáveis e construtivos. Ao invés disso, o que se observa é cobrança, é desempenho a qualquer preço, é quantidade, é a tecnologia suplantando as relações humanas. Salas lotadas, critérios econômicos e técnicos se colocam como prioritários em detrimento da formação, da humanização e da libertação do ser humano. Os sonhos e pesadelos de cada um, especialmente dos mais sensíveis, dos mais tímidos, não encontram a amplitude necessária para serem compreendidos e exorcizados numa escola onde o tempo que conta é o do relógio de ponto. Deu no que deu.

Bullying, tristezas, frustração, medo, individualismo, descaso, jornadas estressantes, baixos salários, desvalorização dos profissionais da educação resultarão em mais tragédias. É preciso buscar no interior da própria escola, além da sociedade onde ela se insere, as razões de sua atuação sofrível e porque ela não tem conseguido superar essas dificuldades tão angustiantes. É preciso saber o que temos feito em termos de produção do futuro. Que tipo de sociedade nos interessa? Tecnicista, violenta, individualista ou fraterna, alegre, inclusiva, humana e livre?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Universidade Popular Juvenal Arduini

No sábado, dia 19 de março, dia da “famosa” enchente de São José - e choveu muito! -, um grupo de pessoas de Uberaba, de Frutal e da região reuniu-se em torno de uma bela ideia: dar mais um passo na criação da Universidade Popular Juvenal Arduini.

Discutimos ideias, ações e frases instigadoras, como a de Rosa de Luxemburgo: “Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres.”

Foi pensando nisso, e no que conversamos nesse dia, que me lembrei de um grande educador francês: Georges Snyders. Autor de várias obras, entre as quais se destacam: Escola, classe e lutas de classes (1977), Alegria na escola (1988), Pedagogia progressista (1974) e Para onde vão as pedagogias não diretivas? (2001). É um dos grandes estudiosos da pedagogia contemporânea. Conheçam alguma coisa de seu pensamento.

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“Entendo que o objetivo (da Escola) é levar o aluno, partindo de sua experiência e sensibilidade, a interpretar de maneira única e individual a cultura que nós lhe propomos. Ele não vai criar o novo sentido de um grande criador, não vai realizar uma grande obra, mas também não vai se limitar a uma repetição mecânica. O aluno tem uma personalidade única e o que me interessa é como esta personalidade única vai reter, amar, vibrar e, então, transformar esta cultura que a Escola lhe propõe.”

“Durante muito tempo baseamo-nos na idéia de que bastava dar prosseguimento à experiência dos alunos para que eles progredissem. Acreditávamos que se eles observassem bem os fenômenos, fizessem pequenos experimentos sozinhos e os olhassem atentamente, eles aprenderiam. Esta Didática é a de Freinet, de Claparède e mesmo de Piaget. Ela se apóia na continuidade. A grande mudança atualmente é que se sabe que os alunos partem de uma concepção sobre as coisas. Mas estas concepções são, geralmente, falsas. Eles formam estas idéias a partir das possibilidades de nossa civilização, da TV, de tudo que existe por aí. Há, então, uma primeira tarefa que é ajudar os alunos a desconstruir estas noções falsas e a compreender por que elas são falsas.”

“Quanto mais os alunos enfrentam dificuldades - de ordem física e econômica - mais a Escola deve ser um local que lhes traga outras coisas. Essa alegria não pode ser uma alegria que os desvie da luta, mas eles precisam ter o estímulo do prazer. A alegria deve ser prioridade para aqueles que sofrem mais fora da Escola.”

“Sei que é um pouco utópico, mas de vez em quando é necessário sonhar. Estou aposentado e sei que sonho; mas o mundo precisa, de tempos em tempos, de pessoas sonhadoras.”

É isso aí!

Veja mais no blog: http://jorgebichuetti.blogspot.com/search/label/universidade%20popular

terça-feira, 1 de março de 2011

Bicicletas: por uma questão de princípio

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Bicicletas no trânsito, mesmo que em situação de erro, devem ter nosso respeito e a preferência. Eu explico: depois da caminhada, as bicicletas representam a alternativa mais ecológica e saudável de locomoção que existe.

Bicicletas não fazem barulho, não soltam fumaça, pois não queimam combustíveis poluentes e não têm escapamento para gazes prejudiciais ao meio ambiente, ocupam pouquíssimo espaço, podem ser transportadas nas costas, empurradas morro acima e morro abaixo, em carrocerias, em suportes variados, podem ser guardadas em apartamentos, podem ser pilotadas por pessoas de todas as idades, desde que se tomem alguns cuidados básicos de segurança, dependendo do modelo, não custam caro... E o quê mais? Amplie a lista, acrescente mais uma qualidade deste veículo do futuro, fique à vontade.

Andar numa bicicleta pode ser um ato de muita elegância. Se não deixarmos o pé enroscar na corrente, pode-se andar numa bicicleta de calça fina, até de terno. Ajeitando-se bem a saia, ela não atrapalha. Deve-se, por questões de segurança, evitar o uso de sapato de salto alto, mas, cá entre nós, esse tipo de calçado faz mal à coluna.

Pode-se ir de bicicleta na panificadora, no supermercado, no banco, na escola, ao trabalho, ao cinema, onde puder e quiser. Você já viu alguma restrição às bicicletas? Algo do tipo: “proibido andar de bicicleta aqui”. Tudo bem que não se deve andar de bicicleta nas calçadas, nos passeios, pois isso pode incomodar os pedestres, pode machucar alguém, mas fora isso não há restrições. É claro que existem locais onde é inconveniente andar de bicicleta, por exemplo, nos corredores de um shopping ou de uma escola, mas nesses lugares todos existem estacionamentos apropriados.

Bicicletas não pagam taxas abusivas e injustas para circularem nas vias públicas. Delas não se exigem placas, nem carteira de motorista aos ciclistas. Não se cobra pedágio de bicicletas (tomara que continue assim, nunca se sabe até onde vai a sanha arrecadadora de certos políticos!).

Convencidos? Como cavalos, mulas, burros, búfalos, cabras, carros de boi, charretes e carroças não devem circular nas grandes cidades, a não ser em parques, grandes praças ou trajetos de trânsito mais livre, restam as bicicletas como alternativa saudável e ecológica.

Por tudo isso, devem ser protegidos, acima de qualquer lógica, os ciclistas, os bicicleteiros, os amantes da magrela, os que gostam das bikes. Então, se um menino abusado cruzar na sua frente de bicicleta, contrariando todas as regras de trânsito, respire fundo, diminua a velocidade, e deixe-o passar. Se uma bicicleta vai pela esquerda, ultrapasse com cuidado. Se você perceber uma bicicleta à frente, ou do seu lado, pense como o mundo e as grandes cidades seriam bem melhores se mais pessoas andassem de bicicleta, pense na poesia que é ir ao encontro da namorada de bicicleta, no quanto é bom poder curtir uma paisagem bonita no ritmo lento de algumas pedaladas. Entendeu? Concorda?

Este texto foi publicado no Blog do CEA Sítio da Pedreira, em 17 de fevereiro de 2011.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Escrituras

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Você tem alguma dificuldade na hora de escrever um texto? A maioria das pessoas tem. O que fazer? Sair correndo? Enfiar a cara num buraco? Brigar com uma folha de papel em branco ou com o teclado do computador até que um ataque de fúria ponha tudo a perder? Eu tenho a sugestão ideal: escolha uma roupa confortável, feche as janelas, tranque as portas, apague as luzes e saia de casa. Não se esqueça de levar uma caneta, ou lápis, e uma caderneta de anotações. E deixe sua casa para trás, caia na estrada. Vai, vai...

Escrever é como deixar rastros no chão de terra de uma estrada poeirenta. Pode ser que não passe ninguém, que não chova, que não vente muito e os sinais riscados vão permanecer ali por certo tempo. Pode ser que logo a seguir caia um pé d’água e a enxurrada carregue tudo, limpe tudo. Qual é a sua expectativa? Qual é a sua previsão do tempo? Chuvas e trovoadas? Tempo seco? As escolhas são muitas. Portanto, é melhor deixar algumas marcas, caminhar devagar, suave, sentindo cada passo dado. Escrever e caminhar são quase um jogo.

Jogo de dados, baralho, xadrez, sorte ou azar, tanto faz, o ruim é caminhar pesado, como se estivéssemos carregando um fardo maior do que damos conta. Você tem o olho maior do que a barriga? Minha avó gostava de dizer: “devagar, porque quem vai com muita sede ao pote termina por se afogar”. Ela não sabia nadar. Eu adoro. Mas não entro em qualquer poço, principalmente não entro naqueles em que não enxergo o fundo. Águas turvas, estou fora. Medroso? Covarde? Cauteloso? Pouco importa. Talvez...

Talvez esse jeito caipira de ser não me permita ir longe. Talvez, quem saberá? Só vou parar quando meus pés doerem bastante, o joelho estourar ou o combustível acabar. Até lá, pulo porteiras fechadas, se não tem caminho eu faço um, invento, dou a volta, passo no meio de cerca de arame farpado, subo em árvores, atravesso rios rasos e fundos. Se for preciso, dou calote no pedágio. Descubro um jeito. Vou a pé, de cavalo, de trem, de carro, de avião, de barco. Comigo não tem tempo ruim, só quando chove o dia inteiro, que nem dá vontade de sair de casa.

Casa? Não sou de me fechar em casa. Gosto do mato e das ruas da cidade, do cheiro de terra e de asfalto molhado. Aprendi com Drumonnd que quando estou na roça queria estar na cidade, e quando estou na cidade gostaria de estar na roça. Por isso meu pai diz que eu vivo na estrada. Então sou mesmo é viajante, motorista e passageiro. Inquieto, não tenho parada, só trajeto, só próximo ponto, sem chegada, só partida.

Estou sempre de partida. Escrevo para marcar o caminho, como João e Maria na floresta. Jogo migalhas de pão no chão para ver se não me perco. Não adianta nada. Parece até que não li a história direito. As migalhas somem e eu já não sei onde estou. Tenho de começar tudo de novo. E lá vamos nós, refazer roteiros, aprender como se faz, voltar para o jardim de infância, abrir as picadas que o mato acabou de fechar, cheias de espinhos e carrapichos. Precisava aprender a ler melhor o manual de instrução, as gramáticas, as antologias rodoviárias e literárias.

Literaturas, geografias, histórias, eu gosto mesmo é de olhar para trás, mas enxergo pouco. Minha vista não anda boa. O Sol me sufoca, mas a claridade da Lua também não me ajuda muito. Se eu pudesse, organizava as estrelas do meu jeito e fazia um mapa que eu pudesse ler no céu. Como não compreendo nada de astronomia, sigo meu caminho de dia. Aí eu coloco os óculos escuros e sigo adiante. Se escurecer eu diminuo a marcha. Parar não. Então, para não esquecer, eu escrevo e guardo tudo num embornal. Vez ou outra meto a mão lá dentro, que é fundo, e tiro alguma coisa que presta. Quase nunca.

Quase nunca durmo ou acordo na hora certa. Luto contra o sono para ver se consigo escrever mais um pouquinho, caminhar mais um tanto. As costas ficam doloridas, não encontro uma posição melhor, dos dedos escapam as teclas. Só me resta dormir sonhando com um texto perfeito, uma bíblia libertária, uma enciclopédia só de verbetes felizes, de amor e de sexo, de viagens maravilhosas.

Falando nisso, boa viagem. A gente se vê por aí.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Chuvas, trovoadas e o clima no Cerrado: modo de usar

Renato Muniz Barretto de Carvalho

O Cerrado costuma ter dois momentos bem marcantes: um desses momentos é chamado de “tempo das chuvas” ou “tempo das águas”, geralmente vai de outubro a abril. Como o próprio nome diz, chove muito nesta época, com chuvas torrenciais, acompanhadas de muitos raios, às vezes tempestades, que derrubam árvores e assustam todo o mundo, bichos e pessoas. A temperatura esquenta, em alguns lugares os termômetros ultrapassam a marca dos 40 graus. A partir do mês de maio já esfria bem, as frentes frias do Sul começam a vir com força, e é quando chegam as chuvinhas finas, geladas, que convidam para o aconchego de um fogão de lenha.

A outra estação é a da seca, quando chove pouco, tudo fica amarelado, seco, é claro! As pastagens, os animais e as pessoas se ressentem por causa da baixa umidade. O tempo da seca, geralmente, vai de maio a setembro, às vezes se prolongam até outubro ou novembro. É quando acontecem muitos incêndios, o ar fica carregado de poeira e o céu, nos fins de tarde, adquire tons alaranjados, até vermelhos, com paisagens e flagrantes lindos.

Parece que a maioria dos habitantes dessa região não se acostuma com as mudanças e os ritmos anuais. Como alguns reclamam! No tempo das chuvas as pessoas comentam, preocupadas, que está chovendo muito, que a chuva “atrapalha” isso e aquilo. No tempo da seca é a mesma coisa, dizem que “nunca viram um ano tão seco” e outras observações curiosas, desencontradas, tão típicas, tão características nossas.

O tempo das chuvas traz preocupações com as enchentes, com os deslizamentos de encostas, mas é o tempo da fartura, das colheitas, das pastagens verdes. O solo fica encharcado e as minas d’água – se choveu bem e elas estão protegidas por árvores, por matas, e se estão em refúgios adequados – vão abastecer os reservatórios, garantir a fartura de água nas cidades e o fluxo dos rios, córregos e riachos.

O tempo da seca traz outras preocupações, principalmente com as queimadas, mas o período sem chuvas facilita a lida no campo, pois permite que vários serviços sejam executados, permite que novas formas de vida apareçam e, de certa forma, há uma preparação para o próximo período. Se ninguém retirar ou colocar fogo, as folhas secas que caírem nessa época servirão como um importante componente de proteção para a vida do solo.

Em janeiro e fevereiro ocorrem os mais altos índices de precipitação pluviométrica. Costuma chover na metade dos dias dos dois meses, isto é, em 59 dias, 31 dias de janeiro e 28 dias de fevereiro, costuma ocorrer chuva em 30 dias ou mais. Se não vier o veranico, que é um intervalo sem chuva.

É bem diferente o que acontece em julho ou agosto. São meses secos, quando torcemos por um diazinho que seja de chuva, para aliviar a poeira e a sequidão.

No tempo das chuvas, a umidade toma conta de tudo. Às vezes, uma fina camada de mofo cobre os móveis de madeira. A roupa no varal demora a secar, os motoristas sofrem com as estradas cheias de buracos. Nas várzeas e nas encostas o medo toma conta dos mais simples, miseráveis e desafortunados. Até que as chuvas diminuem e, parece, tudo volta ao normal, sem nunca ter deixado sua normalidade, se é que a natureza tem uma norma, regras fixas. Se regras existem, não são tão rígidas quanto uns querem fazer crer. Não são.

O tempo da seca traz a possibilidade de finais de semana ensolarados e, se não esfria muito, permite ousadias nas refeições, banhos de rio e duchas deliciosas em cachoeiras escondidas. O ruim é que o tempo seco prejudica a pele dos mais sensíveis, o pó que se acumula nos móveis incomoda as donas de casa e afeta a saúde dos alérgicos. Os hospitais ficam cheios de crianças com problemas respiratórios.

Nesse período, os governos e todos nós deveríamos ficar atentos para impedir e denunciar as queimadas, o desmatamento e a poluição do ar e dos cursos d’água.

O melhor de tudo isso é saber que um dia a seca termina, que a chuva volta, que o nível dos rios sobe novamente. As árvores se enchem de folhas verdes, os pássaros cantam bastante e constroem, frenéticos, seus ninhos.

Mas, é no mês de abril que o tempo nos reserva sua melhor surpresa. A paisagem ainda está bem verde, mas as chuvas diminuem. Então, aproveite para se deitar num gramado à sua escolha, num local seguro, de preferência bem cedo, ou de tardinha, e tente ouvir o coração da Terra bater. Feche os olhos, relaxe, deixe as preocupações de lado um pouco e perceba que você faz parte deste imenso e belíssimo mundo. Se você se sentir confortável, durma, e acorde só de noite, quem sabe com a sorte de ter uma estonteante e linda Lua cheia despontando no horizonte.

Publicado também no Blog do CEA Sítio da Pedreira.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011





No final de dezembro de 2010, participei do programa de TV “Negócio Fechado” (TV Universitária – Uberaba, MG), dirigido pelo excelente jornalista Francisco Marcos Reis. Na ocasião, ganhei um belo presente: o livro “Uberaba – 100 anos de olhares e memórias”, de sua autoria. Em retribuição, entreguei ao Chico Marcos o meu livro “Os bichos são gente boa” (Giz Editorial). Conversamos sobre história, demografia, meio ambiente e política. O programa foi ao ar na quinta-feira, dia 22 de dezembro, com reprise no domingo, 25/12/2010. Acima, reproduções das capas dos livros e flagrantes da entrevista.