segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Cuidar da água: uma obrigação

Renato Muniz Barretto de Carvalho

O mundo sempre mudou desde que é mundo, e vai continuar mudando. Eis aí uma constatação óbvia que, no entanto, não nos livra da obrigação de perceber e estudar estas mudanças e seus reflexos na vida humana. A segunda metade do século XX foi pródiga em mudanças. Mudanças geopolíticas importantes e outras de paradigmas que nos orientaram na busca de novos modelos e de respostas para os novos problemas que surgiram.

A economia mundial expandiu-se de forma fantástica no século XX. Esta expansão ocorreu de forma muito desigual, afetando países e povos de maneira positiva ou negativa em circunstâncias díspares e contraditórias, trazendo impactos significativos na vida das pessoas. A indústria desenvolveu novos materiais, processos e produtos sem os quais não se sabe se a humanidade conseguiria viver da forma como vive hoje. Entre eles estão os automóveis, a aviação, a informática, as telecomunicações e o plástico. Ao lado do grande progresso representado por tudo isso agravou-se a poluição e o que ficou conhecido como o custo social do progresso. Se a produção e o avanço técnico aumentaram numa rapidez incalculável em relação aos padrões do século XIX, o acúmulo de lixo no planeta torna-se um dos principais desafios no começo do século XXI. Oceanógrafos e outros estudiosos dos oceanos fizeram advertências graves sobre as condições de poluição dos mares, contaminados com toneladas de material plástico e outros poluentes, nem sempre visíveis. Até o século XIX, o lixo produzido era basicamente lixo biodegradável, hoje não.

Esta situação de degradação afeta principalmente as águas, bem imprescindível ao ser humano. Talvez a idéia de ciclo fechado presente no ciclo hidrológico tenha contribuído para se tratar a água com descaso. Além disso, a água é um solvente por excelência. Há quem diga que o planeta devesse ser chamado de planeta água devido à sua abundância na superfície terrestre.

Das mudanças que os últimos 20 anos trouxeram, uma delas refere-se às nossas concepções e práticas a respeito do uso da água. Existem aqueles que já falam na guerra da água como uma das tensões geopolíticas contemporâneas. Conflitos que já estariam ocorrendo, por exemplo, na África e no sudeste asiático.

Da água consumida no Brasil, uma parte é usada no abastecimento urbano residencial, outro tanto na indústria e uma grande parte na irrigação. Como se percebe, para que o setor agropecuário continue crescendo, a água é fundamental. Algumas estimativas dizem que um tomate necessita de 30 litros de água, um litro de leite precisa de 4 litros de água, e um quilo de carne consome 16 mil litros. Se a água é constante na superfície terrestre, temos de perceber, no entanto, que sua demanda cresce desproporcional em relação à capacidade de usá-la racionalmente, de garantir um aproveitamento de modo a não causar desperdício. Duas questões se colocam de forma preocupante: o seu aproveitamento racional e sua qualidade. De nada adianta a existência de água poluída, nem a fúria destruidora das águas que descem violentas, arrasando barrancos, arrancando árvores, isso para não falar de casas, pontes e plantações.

A água não vai acabar, mas cuidar dela é urgente. Seu uso sustentável significa conhecer melhor suas características, os efeitos das atividades econômicas sobre sua disponibilidade e sua qualidade, a correta administração dos mananciais e uma distribuição eqüitativa e justa. Significa também tratar o esgoto urbano e industrial e os dejetos oriundos da atividade agropecuária.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Grupo de trabalho da SBPC e ABC pede revisão do Código Florestal embasada na ciência

Membros do GT reiteram em carta que "qualquer aperfeiçoamento no quadro normativo em questão deve ser conduzido à luz da ciência"

O grupo de trabalho formado pela SBPC e pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) para analisar o Código Florestal vigente e seu substitutivo, atualmente em discussão no Congresso, deve concluir suas atividades até dezembro, com apresentação de relatório técnico.

Desde julho, quando foi criado o grupo, foram realizadas três reuniões para debater a questão.

Em carta assinada pelos presidentes da SBPC, Marco Antonio Raupp, e da ABC, Jacob Palis, os membros do grupo defendem que a revisão do Código Florestal deve "considerar o grande avanço tecnológico na capacidade de observação da superfície continental a partir do espaço e indicar as lacunas de conhecimento científico ainda existentes".

Leia a íntegra da carta:

"Em 6 de julho de 2010, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) se manifestaram conjuntamente ( www.jornaldaciencia.org.br/links/Carta_SBPC_ABC_6dejulho.pdf ) com respeito a modificações no marco legal sobre a proteção e uso da vegetação brasileira em discussão pelo Congresso Nacional.

Ao mesmo tempo, essas instituições representativas da comunidade científica brasileira instituíram um grupo de trabalho composto por cientistas e representantes dos setores ambiental e agrícola brasileiros (lista dos participantes do grupo de trabalho abaixo) com a missão de analisar em profundidade a questão ampla do Código Florestal vigente e do substitutivo ao PL 1.876/1999, aprovado pela Comissão Especial de Revisão do Código Florestal.

O grupo de trabalho se reuniu por três vezes, desde julho último, e planeja concluir suas atividades até final de dezembro de 2010, com apresentação de relatório técnico detalhado. Julga-se apropriado tornar público, a título exemplificativo, alguns pontos importantes das análises realizadas pelo mencionado grupo de trabalho, como segue:

A comunidade científica brasileira deseja contribuir, significativamente, com informações confiáveis que embasem a modernização do Código Florestal brasileiro.

Análises aprofundadas da disponibilidade de terras para a expansão da produção de alimentos, fibras e bioenergia, para atendimento ao mercado interno e externo, pelo menos até o horizonte de 2020, não deixam dúvidas de que há estoque suficiente de terras agrícolas apropriadas para suportar uma expansão da produção, destacando-se o fato de que há ainda grande espaço para significativos aumentos sustentáveis da produtividade alicerçados em ciência e tecnologia.

A constatação anterior permite que se analise a necessidade de modificações do Código Florestal sob outra ótica, não premida por excessiva urgência e imediatismo, para que não se perca oportunidade histórica de incorporar os aperfeiçoamentos realmente necessários a tão importante diploma legal e feitos à luz do melhor conhecimento científico.

Os aperfeiçoamentos do Código Florestal, visando modernizá-lo e adequá-lo à realidade brasileira e às necessidades requeridas para promover o desenvolvimento sustentável, clamam por uma profunda revisão conceitual embasada em parâmetros científicos que levem em conta a grande diversidade de paisagens, ecossistemas, usos da terra e realidades socioeconômicas existentes no país, incluindo-se, também, a ocupação dos espaços urbanos.

Essa revisão deve considerar o grande avanço tecnológico na capacidade de observação da superfície continental a partir do espaço e indicar as lacunas de conhecimento científico ainda existentes.

Em essência, reiterando o que já manifestamos em 6 de julho passado: entendemos que qualquer aperfeiçoamento no quadro normativo em questão deve ser conduzido à luz da ciência, com a definição de parâmetros que atendam à multifuncionalidade das paisagens brasileiras, compatibilizando produção e conservação como sustentáculos de um novo modelo socioeconômico e ambiental de desenvolvimento que priorize a sustentabilidade."

Participantes do Grupo de Trabalho Código Florestal:

Aziz Ab´Saber (USP)

Carlos Alfredo Joly (Unicamp e Biota)

Carlos Afonso Nobre (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - Inpe)

Celso Vainer Manzatto (Embrapa Meio Ambiente)

Gustavo Ribas Curcio (Embrapa Florestas)

Helton Damin da Silva (Embrapa Florestas)

Helena Bonciani Nader (SBPC e Unifesp)

João De Deus Medeiros (Ministério do Meio Ambiente - MMA)

José Antônio Aleixo da Silva (SBPC e UFRPE, coordenador do GT)

Ladislau Skorupa (Embrapa Meio Ambiente)

Peter Herman May (UFRRJ e Amigos da Terra- Amazônia Brasileira)

Maria Cecília Wey de Brito (ex-secretária de Biodiversidade e Florestas, MMA)

Mateus Batistella (Embrapa Monitoramento por Satélite)

Ricardo Ribeiro Rodrigues (Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal - Esalq-USP)

Rute Maria Gonçalves Andrade (SBPC e Instituto Butantan)

Sergio Ahrens (Embrapa Florestas)

Tatiana Deane de Abreu Sá (diretora da Embrapa)

Publicado em: JC e-mail 4125, de 27 de Outubro de 2010.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

CEA Sítio da Pedreira - paisagens

CEA Sítio da Pedreira - Entardecer de inverno

CEA Sítio da Pedreira

Centro de Educação Ambiental Sítio da Pedreira

O Centro de Educação Ambiental Sítio da Pedreira (CEA) é um local de vivências e aprendizagem que funciona junto à Fazenda Aroeirinha, zona rural do município de Uberaba, MG. Está situado a 15 km do centro da cidade, próximo à BR 050, sentido São Paulo.

Possui uma grande e agradável área verde, com muitas árvores e água por perto. Tem uma sala de aula, local para refeições, uma biblioteca e equipamentos de lazer. Oferece algumas trilhas, definidas a partir de critérios de aprendizagem do meio natural e contemplação da natureza. Na essência e propósitos, é um espaço de cultura, arte, lazer e reflexões sobre o meio ambiente e o mundo em que vivemos.

Um dos seus objetivos básicos é a oferta de cursos, nas mais diversas áreas, em especial os voltados para a Educação Ambiental, para aspectos relacionados a uma vida saudável, à alimentação orgânica, à produção sustentável e às diferentes leituras do mundo. Sua linha de atuação está focada na prática de atividades pautadas nas vivências ambientais, como trilhas, dinâmicas pedagógicas e demonstrações sobre preservação do solo, água, flora e fauna.

O espaço está aberto a propostas variadas, em que alguns princípios estejam sempre presentes: a consideração à sociobiodiversidade, a valorização da arte e da cultura, a flexibilidade, a ética e o respeito à individualidade. A intenção é trabalhar com crianças, adolescentes, adultos e pessoas da terceira idade interessados nestas temáticas. Na construção dos espaços, simples e rústicos, porém aconchegantes, foi observada a preocupação com a acessibilidade e o conforto ambiental.

No CEA Sítio da Pedreira é possível participar dos cursos, realizar atividades variadas, fazer caminhadas, conhecer trilhas na mata, acampar, fazer pesquisas ou simplesmente descansar e ouvir o som dos pássaros. O acervo da biblioteca está disponível para pesquisas e leituras.


O CEA Sítio da Pedreira é um espaço em permanente construção, aberto a novas ideias, propostas e parcerias. Venha nos fazer uma visita. Escreva um e-mail para sitiodapedreira@gmail.com ou então ligue para (34) 9972-6843 ou (34) 9996-6843. Blog: http://cea-sitiodapedreira.blogspot.com/


domingo, 19 de setembro de 2010

Manhã de autógrafos na Livraria Alternativa em Uberaba


Thiago de Melo Andrade e Renato Muniz

Sessão dupla de autógrafos


Na ensolarada manhã de sábado, dia 18 de setembro de 2010, aconteceu a sessão dupla de autógrafos dos autores Renato Muniz e Thiago de Melo Andrade. Foi na Livraria Alternativa, onde os dois receberam amigos e familiares, tudo sob os cuidados da excelente equipe da Alternativa: Thaís, Marcelo, Cátia, Joziane e os demais.

Os escritores autografaram seus livros “Os bichos são gente boa” (Renato Muniz – Giz Editorial) e “O ovo do elefante” (Thiago de Melo – Melhoramentos), recentemente lançados na XXI Bienal Internacional do Livro de São Paulo.



sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O colecionador de embalagens

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Preciso contar a história do Zeca Antônio, um conhecido meu. Coitado! Desapareceu um dia desses e não há meio de encontrá-lo. Já tentamos de tudo: cartas espalhadas na Internet, cartazes pregados em postes, apelos dramáticos em portas de festas e até panfletos, que ironia!

Ninguém sabe contar ao certo como tudo começou. Parece que foi uma coisa simples, algo corriqueiro, assim como uma correspondência à toa colocada debaixo da porta. Alguns vizinhos, em depoimentos à polícia, disseram que acontecia de vez em quando. Ora uma propaganda, ora produto em oferta, uma loja em liquidação, revistas, convocatórias para reuniões, propagandas do governo, jornalecos de políticos repletos de fotografias três por quatro dos próprios, uma novidade qualquer, convites de casamento e, o pior, as contas a pagar e os extratos bancários. Tais papéis começaram a aparecer com maior freqüência e, como se não bastasse, às vezes viam em dobro, como para lembrar ao sujeito quanto ele tinha no banco ou qual era o seu saldo devedor.

Na lógica do Zeca Antônio, nada podia ser jogado fora. Segundo depoimento dos porteiros e faxineiros do prédio onde ele morava, nem os envelopes eram descartados, ele dizia que um dia poderia precisar deles. Para terem uma idéia do problema, até os catadores de lixo reciclável que atuavam na região reclamaram da pouca quantidade de material colocado para fora. O resultado foi que o volume de papel e assemelhados aumentou consideravelmente no interior do pequeno apartamento.

No começo, tudo cabia numa simples gaveta. Com o tempo, ele teve de procurar alternativas para o aumento do material guardado com esmero e carinho. A primeira solução foi passar a armazenar em pastas o seu acervo. Depois, tornou-se um verdadeiro profissional, começou a organizar por título, por assunto, por autoria, e não parou mais. Passou a arrumar as pastas em prateleiras, em estantes e armários. Separou as pastas por cores diferentes, organizou um índice, pensou inclusive em contratar um especialista em arquivos.

Em pouco tempo, todos os cômodos do apartamento já estavam tomados por pilhas de papéis. Pilhas enormes de folhetos, de envelopes, de panfletos, de cartas, de avisos etc. Em certa ocasião, tive uma oportunidade de visitá-lo e fiquei preocupado com o que vi. Tive de sentar numa pilha de jornais, as cadeiras e o sofá estavam tomados por papéis, e o Zeca ficou preocupado, me vigiava para ver se eu não tirava nada do lugar. Eram pilhas separadas por assuntos que só ele sabia o que significavam. Outras pilhas espalhadas pelo chão indicavam revistas e até documentos de imposto de renda de anos anteriores.

O Zeca já não tinha tempo para mais nada. Não saía com os amigos, não ia ao cinema, nem se interessava mais por futebol. Passava seus preciosos minutos organizando e arrumando papéis. E qualquer intervalo era pouco. Reclamava da falta de tempo, queixava-se que dormia pouco, já não se alimentava direito. Como não tinha tempo de preparar suas refeições, e como sua ajudante pediu demissão, pois não agüentava mais tanto papel, passou a pedir comida pelo telefone. Começou a colecionar as embalagens. No início por tipo de comida, por tamanho, por cor, por cheiro e daí por diante.

Um dia desses, liguei para ele e ninguém respondeu. O telefone tocou até a ligação cair. Liguei de novo e fiquei preocupado. Fui até o apartamento, toquei a campanhia e nada de atender. Conversei com o pessoal da portaria e nenhuma notícia dele. Com autorização policial arrombamos a porta e, para surpresa nossa, não encontramos o Zeca. Sumiu, sem deixar notícias. No apartamento apenas pilhas de papel. Quero acreditar que ele se encontra distante da realidade, perdido num mundo de papel, mas que um dia possa voltar. Tem gente que é assim, se esquece do mundo e das pessoas e se perde em preocupações e pilhas de papel.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Escrito nas árvores

Renato Muniz Barretto de Carvalho


A água pinga da torneira de modo cadenciado, constante, irritante. Os engenheiros seriam capazes de calcular quantos litros vão para o ralo em uma hora, um dia, uma semana, uma vida inteira.


Algumas pessoas, alguns profissionais, conseguem realizar cálculos complicados, considerados difíceis para a maior parte da população. Os biólogos, por exemplo, em especial os botânicos, dizem que conseguem calcular a idade das árvores observando os anéis nos troncos cortados. Existem árvores que têm uma vida longa, como os jequitibás, verdadeiras testemunhas do passado. Muito interessante! Um jovem apaixonado ou um desocupado qualquer talvez não se preocupem com questões como estas.


O Afonso Júnior, balconista da loja de eletrodomésticos, nas horas de folga, logo após o almoço, vai para a praça, senta-se no banco, pega um estilete e põe-se a escrever o nome de sua namorada no tronco de uma sibipiruna que está atrás do banco: Josenaide. Em uma semana, desenhou “Josen”. tempo de fazer uma letra por dia. Se tudo correr bem com o namoro, vai ter prazo de escrever também o próprio nome e desenhar um coração dando a volta em todo o tronco, tudo para simbolizar seu amor por Josenaide.


No sábado à noite, quando foram tomar um refrigerante no barzinho, ele comentou com ela o que estava fazendo. Disse que sua demonstração de amor ficará registrada para sempre. Ela riu sem graça e prometeu passar pela praça para ver a arte do namorado. não conseguiu entender em qual árvore está escrito. Pensou em voz alta: - São todas iguais! A jovem, estudante universitária, não conhece nada de sibipirunas, ipês, hibiscos e outros nomes esquisitos que o namorado citou. O que nem ela e nem ele sabem é que o abraço do coração, dependendo do tamanho, pode até matar a árvore.


Se a pobre árvore morrer, pode ser que não seja culpa do balconista apaixonado, embora curioso, reprovável e triste o hábito de ferir espécies tão bonitas. Numa sociedade em que ainda existem analfabetos e não se estimula a leitura como se deveria, muitos ainda insistem em escrever nos troncos das árvores, danificando-as, prejudicando seu desenvolvimento, pois os entalhes podem ser a porta de entrada de fungos ou ocasionar a interrupção da seiva. Escrever uma carta seria bem melhor, não acham? Como as coisas são interligadas, intimamente relacionadas, talvez um dia o estímulo à leitura encontre correspondência em atitudes ambientais não predatórias e vice-versa.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Os bichos são gente boa


Foi lançado no último sábado, dia 14 de agosto de 2010, na XXI Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o livro "Os bichos são gente boa", de Renato Muniz Barretto de Carvalho, com ilustrações de Mara Maciel.

Trata-se de um livro de contos sobre alguns bichos que habitam o Cerrado brasileiro. O livro foi publicado pela Giz Editorial (www.gizeditorial.com.br).

Da Apresentação:

Doze contos, alguns meninos e meninas espertos, muitos bichos, uma região imensa, rica e importante pela sua biodiversidade. Uma região marcada pela presença de inúmeras nascentes, por rios de águas cristalinas e por uma beleza que encanta crianças e adultos.

Trata-se do Cerrado, um dos biomas brasileiros, onde se localizam várias cidades, grandes plantações, muitas indústrias, parques nacionais, além da própria capital do Brasil. Um bioma ameaçado, com espécies em risco de extinção, um bioma que precisa ser mais bem conhecido, admirado e preservado.

As histórias reunidas no livro tentam mostrar um pouco da riqueza da fauna e da flora do Cerrado. Falam de aventuras e desventuras, de situações que deram certo e de outras cujo final tem, ainda, a possibilidade de ser diferente.

Foram escritas para quem tem vontade de mudar o mundo e se encanta com coisas simples e belas, como as flores do Cerrado.

Para pedidos e conversa com o autor, entre em contato pelos e-mails: sitiodapedreira@gmail.com, renatombcarvalho@gmail.com ou pelo site da Giz Editorial.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Árvores e livros

Renato Muniz Barretto de Carvalho


Alguns entusiastas dos e-books, os livros eletrônicos, argumentam que o meio eletrônico economizaria árvores, porque um livro de cem páginas consome tantas árvores etc., etc. Não vamos nos deter em números e estatísticas tão ao gosto de certos articulistas, mas ampliar o debate, abrir a cabeça.

Antes de continuar, é bom que se diga que, em meio eletrônico ou impresso em papel, no formato tradicional ou em qualquer outro possível formato que venha a existir, as idéias não desaparecerão, as pessoas não deixarão de inventar histórias ou de relatar acontecimentos, de registrar suas viagens, de contar suas memórias, tampouco deixarão de debater teorias ou fazer pesquisas e divulgá-las.

As sociedades primitivas valiam-se de uma intensa oralidade. Estudos de antropologia dizem que a tradição passava de pai para filho através de longos rituais onde ouvir e contar histórias estava no centro da formação e manutenção da identidade do grupo, significando sua própria continuidade enquanto organismo social ou etnia. Inúmeros relatos sobre primeiros contatos entre pessoas que desconhecem a língua do outro registram intensas tentativas de diálogo, valendo toda forma de expressão, de gestos a falas intermináveis, talvez em busca de palavras ou sons semelhantes, capazes de estabelecer uma ponte entre os diferentes.

A oralidade, a roda de prosa, o bate-papo e as conversas não desapareceram. Os registros evoluíram dos desenhos nas paredes de cavernas, muros, portais, da invenção das letras e palavras, até a forma consagrada por Gutenberg, o livro tal qual o conhecemos hoje. O rádio e a televisão não acabaram com o livro e nem creio que o computador vá fazê-lo.

Nunca se produziu tanto livro na história da humanidade como hoje. As pessoas estão lendo mais, freqüentam livrarias, discutem livros, presenteiam livros. Ainda é pouco. É preciso escrever mais, produzir mais livros, criar mais bibliotecas, discutir mais o livro, a produção literária, enfim ler mais.

E a questão ecológica? E as árvores abatidas para produzir o papel? Não são os livros os culpados pelo seu desaparecimento. São as queimadas criminosas praticadas desde os tempos coloniais e que permanecem, atualmente relacionadas a um setor arcaico do agronegócio, moderno na utilização de insumos e nas quantidades produzidas, ultrapassado quando se pensa nas relações humanas, na permanência do trabalho escravo, na concentração de terras e na relação predatória com o meio ambiente. Nas queimadas que avançam sobre a Amazônia, sobre a Mata Atlântica e o Cerrado abrindo caminho para a soja, a pecuária e, no seu encalço, outras culturas consumidoras de agrotóxicos, água e terras férteis.

A culpa é de políticas que sempre beneficiaram uns poucos em detrimento da maioria, é da ausência de políticas públicas discutidas amplamente e voltadas à preservação, não apenas como valor em si, mas também como elemento vinculado à qualidade de vida.

A culpa é de uma visão que ainda vê na burocracia um instrumento de controle e opressão social, que valoriza boletos bancários, cópias autenticadas, talonários de multas, segundas vias, certidões e papéis sem valor algum para a cultura e o bem-estar humanos. Livros, ao contrário de papéis inúteis e de outros instrumentos de poder de um estado ainda muito autoritário e a serviço de grupos minoritários, podem, ao lado da educação ambiental, ajudar a combater a poluição e o desmatamento, a construir estilos de vida mais saudáveis.

sábado, 7 de agosto de 2010

Histórias de professor

Renato Muniz Barretto de Carvalho


Certa vez, na faculdade, apareceu um cara engraçado. Não era o tipo físico, e o fulano nem fazia gracinhas ou contava piadas. O fato é que ele ficava próximo da porta da sala de aula, do lado de fora, escutando minhas aulas. Não percebi nas primeiras vezes, e custei a entender o que realmente acontecia. Cheguei a convidá-lo para entrar, mas ele se recusou.


Percebi aos poucos sua freqüência às aulas, até porque ele era bastante discreto. Como eu estava envolvido com a aula, com os alunos que estavam dentro da sala, preocupado em dar uma explicação ou orientar um grupo, nem notei, de início, sua presença. Não sei quando ele começou o curso, mesmo porque ele não tinha feito matrícula, muito menos seu nome constava no diário de classe.


Depois, quando me acostumei com sua presença, até me preocupava se ele estava compreendendo, se tinha dúvidas ou queria fazer algum questionamento. Mas como ele ficava do lado de fora, nunca soube como era seu aprendizado. Supondo que a iniciativa própria constitui-se em pré-requisito básico para a aprendizagem, imaginava que alguma coisa ele aprendia.


O problema era a falta de diálogo entre nós dois, pelo menos um diálogo formal, entre aluno e professor. Eu me esforçava para ser o mais claro possível, expor a matéria, quando era o caso, da maneira mais didática que eu conseguia.


Não era um diálogo de surdos, porque tanto um quanto outro ouviam perfeitamente. O problema era saber se havia entendimento, compreensão do conteúdo, pois não existia retorno. Tão pouco era uma questão de método, pois as aulas não eram, a não ser em determinados momentos, expositivas. O problema do retorno é que, como professor, com uma visão mais de orientador do que de palestrante, mais de trabalho pedagógico do que de discurso, mais de parceiro do que de representante comercial fazendo relatório de vendas ou balconista desfiando tópicos de um receituário técnico, faltavam elementos de acordo com que os pedagogos costumam chamar de processo ensino-apredizagem.


Como a sala tinha várias alunas, cheguei a pensar que ele estivesse interessado numa delas. Mesmo não tendo a confirmação, soube depois que não era essa a razão da sua, digamos, freqüência às aulas. Parece que era puro interesse mesmo.


Um dia, encerrei bruscamente a aula, dispensei os alunos e, antes que ele desse por si, eu o chamei para dentro da sala. Sua assiduidade e sua curiosidade me intrigavam. Mas incomodavam também sua passividade, seu silêncio, sua atitude de quase invisibilidade. Perguntei se gostava das aulas, se o assunto o interessava. Ele disse que sim. Perguntei se queria uma cópia dos meus apontamentos. Ele disse que não, que não saberia o que fazer com eles.


Uma das minhas frustrações, como professor, é que nem sempre quem está dentro da sala de aula quer estar lá, e quem, às vezes está fora, quer estar dentro. Não é fácil fazer a troca e isso não depende só do professor.


O “meu aluno” freqüentou pouco as aulas, pouco mais de um mês e já não o avistei mais nos corredores. A vida de professor nos obriga a correr de um lado a outro da cidade, de sala em sala, mal temos tempo de guardar o nome de todos os alunos, de dar a devida atenção a cada um deles. Esse aluno, como a maioria, passou, foi embora e nem do seu nome eu me lembro mais.


Era um dos faxineiros da escola, encarregado da limpeza das salas depois de encerradas as aulas. Chegava mais cedo para assistir às minhas aulas e cumpria, noite afora, uma extensa agenda, lendo e depois limpando as lousas, desdobrando papéis amassados, desvendando recados, fórmulas e outros escritos nas mesas e carteiras. Como não rendia no serviço, nas palavras do encarregado do setor, foi demitido com um pouco mais do que dois meses de serviço. Um caso típico de evasão escolar ou, se quiserem, exclusão pedagógica.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A vida nas calçadas

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Em 1938, enfrentando inúmeras dificuldades, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss estudou os índios Nambiquara, ao norte de Cuiabá. Segundo relato belíssimo no livro Tristes Trópicos, ir de Cuiabá ao Amazonas era mais fácil via Rio de Janeiro e daí pelo mar até Belém e depois Manaus. Em 1907, o então coronel Cândido Mariano da Silva Rondon iniciou a penetração nesta região, levando uma linha telegráfica ao interior desconhecido do país. Mas, até 1938, ainda poderíamos falar de um “oeste” (far west) brasileiro.

O antropólogo passou um tempo entre os Nambiquaras e descreveu alguns de seus hábitos, relatou seu cotidiano, sua organização familiar, suas crenças, seus hábitos alimentares, sua organização social. Ele conta no livro que os índios dormiam no chão, ao lado de fogueiras, e quando o fogo se extinguia eles rolavam nas cinzas ainda quentes, para se proteger do frio. Conta que nunca viu uma criança apanhar nem receber qualquer tipo de castigo. Nômades, os índios, na época da seca vagavam pelo cerrado à procura de alimento. Ele conta, também, que “todos os bens dos Nambiquara cabem facilmente na cesta carregada pelas mulheres durante a vida nômade. Essas cestas são de taquara rachada, trançada de forma bem aberta com seis tirinhas, formando uma rede de malhas largas estreladas.”

Penso na distância cada vez maior que vai se estabelecendo entre o presente e o passado. Isso é inevitável e óbvio, mas me preocupo com a velocidade com que esse processo se desenrola, nas características dele e nos seus efeitos nas pessoas.

Observando as cidades do interior do Brasil, vejo, num domingo, várias pessoas sentadas na calçada, em frente às suas casas, conversando, trabalhando ou simplesmente vendo o dia passar. Para os Nambiquaras o contato com a natureza era completo, a relação era de dependência estrita, integral. O convívio com os animais, a busca por alimentos, a caça, os medos e alegrias referem-se ao meio ambiente de modo privilegiado. Hoje, a cidade domina. Desta forma se expressou o sociólogo Octavio Ianni, num domingo, no jornal Folha de São Paulo (19/08/2001): “O mundo já é uma grande cidade. Uma cidade modulada em muitas cidades. Cidades em cadeias encadeadas, esgarçadas entre si ou atadas umas às outras, umas dentro das outras. Vistas assim, em perspectiva ampla, são as cidades que compõem a cartografia do mundo, uma vasta cartografia urbana, arquitetônica, simultaneamente caótica e babélica; a mais fantástica obra de arte coletiva.”

Que distância se coloca entre esta grande cidade e o Brasil da década de 1930 ou do território e vida dos Nambiquaras? Muita coisa mudou e não sei se as pessoas se dão conta destas mudanças. A calçada não é o solo arenoso do cerrado seco no mês de agosto na região Norte do Brasil, mas as pessoas estão no chão, na frente de suas casas como se quisessem interagir com uma natureza que não é mais a de tempos atrás.

As pessoas estão nas ruas porque suas casas são, cada vez mais, menores, baixas, quentes, isoladas por grades ou por muros altos. São guardadas por cachorros bravos eternamente amarrados a grossas correntes, nervosos, neuróticos, agressivos e perigosos. As pessoas estão nas cidades porque querem estar umas perto das outras, porque foram expulsas do campo, porque querem “comida, diversão e arte” como cantaram os Titãs.

O mundo vai mudando rapidamente e isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Certos mecanismos nos isolam, outros nos aproximam. Muitos fogem das cidades nos domingos e feriados, numa corrida louca em busca da natureza perdida. Vão para a praia, para as montanhas, para os parques, para o campo, simplesmente para passar o dia. Uns vão para a rua porque não têm outra opção, outros se cercam, se aprisionam em imensos e modernos castelos. Um dia, num futuro que pode estar cada vez mais próximo dada a velocidade com que se processa o transcorrer dos tempos, as contradições vão se aproximar mais de perto, e este encontro pode ser um embate, não uma confraternização. Aí teremos “saudades do futuro”, como disse certa vez o geógrafo Armando Corrêa da Silva.

terça-feira, 20 de julho de 2010

A lagartixa da biblioteca

Renato Muniz Barretto de Carvalho


Minha biblioteca anda parecida com um zoológico. Nos últimos tempos passou por aqui um morcego, que gostava de ler, uma traça, que felizmente comia roupas, e, por último, uma lagartixa doméstica


Pequena, esbranquiçada, silenciosa, ficava me observando e nem abanava o rabinho. Como sou muito maior do que ela, logo vi que o bichinho ficou muito assustado, temendo por sua integridade física, com medo que eu lhe desse uma vassourada. Eu não faria isso, jamais. No começo ficamos um tempo olhando um para o outro. No que ela estava pensando eu não sei. Logo me pus a imaginar quais seriam suas escolhas literárias: romances? Contos? Poesia? Literatura estrangeira ou nacional? Assuntos acadêmicos?


Minha primeira reação foi de alguém incomodado, invadido na sua privacidade, afinal eu não a convidei, ela entrou de atrevida. O que fazer para ela se retirar? Dizer que foi um prazer conhecê-la, agradecer a visita e abrir-lhe a porta da rua? Não adiantaria, mesmo com a maior gentileza. Conversar sobre literatura? Hoje em dia anda tão difícil encontrar um bom papo, alguém que goste de conversar desinteressadamente, sem pressa, com sabedoria e humildade suficiente para não constranger o interlocutor. Às vezes, me sinto desatualizado, percebo que os jornais e revistas são muito tendenciosos em todos os assuntos. Uma lagartixa, vinda sei de onde, poderia me trazer alguma informação nova, contribuir com alguma crítica interessante.


Estava pensando nessas coisas quando levei um susto danado: conversando com uma lagartixa? Será que a falta de um ambiente intelectual mais diversificado, a carência de ideias novas e a ausência de um cenário mais propício à criatividade me conduziam ao delírio? Induziam-me ao desespero, a ponto de tentar um diálogo com uma lagartixa? Pelo menos, dizem que elas trazem prosperidade, significam boa sorte. Ando precisando.


Como ela não se movia, peguei um livro de zoologia na estante e fui investigar sua vida. Parece que seus antepassados vieram da África, nos navios negreiros. Apurei que elas são parentes distantes das tartarugas e dos jacarés, não transmitem doenças e não costumam freqüentar lugares contaminados. Bichinho simpático, não?


Não gosto de emprestar livros, mas se ela escolheu freqüentar minha biblioteca, que ficasse, desde que não estragasse e não levasse nada embora. Se quisesse ler alguma coisa que fosse aqui. Podia ligar a luminária, abrir a cortina, escolher onde se sentar, mas não podia sujar os livros. Acho que não é de seu feitio. Não recomendei que não comesse na biblioteca porque li sobre seus hábitos, ela se alimenta de insetos e assim podia até ajudar em alguma coisa. Logo pensei em lhe oferecer morada fixa, sem precisar se preocupar com taxa de condomínio, água, luz e telefone. Mas pensei melhor e achei que num jardim ela se sentiria mais confortável. Sei que ela não iria se demorar, que iria embora sem dizer adeus e me deixaria novamente , com minhas ideias e elucubrações, esperando que um dia ela voltasse e nós dois pudéssemos conversar um pouco mais sobre as novas tendências literárias, sobre os novos autores africanos, sobre os latino-americanos e sobre a última postagem do Bibliotecário de Babel.

domingo, 11 de julho de 2010

As formigas do jardim

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Não vejo muita graça em comparar animais ou plantas e seres humanos. Cada um tem a sua especificidade, a sua originalidade, um jeito próprio de ser e existir. Acreditar que o que acontece com eles pode acontecer conosco é um tanto forçado, em todo caso... La Fontaine e Esopo que me perdoem.

Acontece que no meu jardim, nos últimos tempos, tenho observado a ação de umas formigas que não param de cortar as plantas. Já tentei conversar com elas, me explicar, convencê-las de que não devem cortar as flores do meu jardim, mas não adiantou, elas continuam cortando.

Até entendo que se não fosse esse seu gesto, esse seu modo de trabalhar, elas não sobreviveriam, afinal, todo mundo precisa comer. Aí vem outro problema: elas comem tudo, comem demais, querem rapar tudo, são insaciáveis! Não descansam enquanto não depilam uma ou duas arvorezinhas por completo.

Pensei em agir de modo radical. Iria numa loja de produtos agropecuários, compraria, com a devida receita agronômica, um tanto bom de veneno e acabaria de vez com todas as formigas. Pensando bem, resolvi deixar essa atitude de lado, o veneno poderia até me intoxicar, poderia contaminar meu jardim. Melhor seria buscar outra estratégia.

Outro dia pensei em arranjar umas cigarras e pedir a elas que cantassem para distrair as formigas, mas me lembrei que essas duas espécies não são muito amigas. Formigas gostam de cortar folhas, cigarras de cantar e, no passado, as formigas deixaram as cigarras padecerem de fome e frio no inverno.

Sei que, talvez, a culpa não seja das formigas, pois fomos nós que alteramos seu habitat e, a partir do desequilíbrio causado por nós mesmos, elas aumentaram muito. Seus predadores naturais, que poderiam ao menos controlar seu apetite, desapareceram, porque nós também os destruímos. Na verdade, não culpo todos os seres humanos, seria injusto da minha parte, pois nem todos são responsáveis pela degradação ambiental, nem todos são poluidores ou esbulhadores do patrimônio ambiental que, afinal, é de toda a humanidade.

Alguns são responsáveis, e muito pela destruição ambiental. Por um motivo ou outro, a mando de alguém ou visando seus próprios interesses, algumas pessoas põem fogo onde não devem, despejam resíduos tóxicos em rios limpos, jogam esgotos, ou deixam que joguem, em mares, lagos e córregos. Usam e abusam de produtos tóxicos, venenos, aditivos proibidos, não respeitam carências, mentem a esse respeito, burlam a legislação. Os atingidos nem sempre têm sequer o direito, ou o tempo, de se defenderem. Crianças e idosos, geralmente os mais frágeis, sofrem com a ganância e a fome de lucros de uns poucos. Aqueles que acobertam ou não fiscalizam são, de certo modo, cúmplices.

Enquanto isso, as formigas não desistem do meu jardim. Não sei se elas próprias sabem que, talvez, até elas fiquem sem ter o que comer no futuro. Se minhas arvorezinhas morrerem, não sei se planto outras.

Pensei nessa história toda por causa de uma declaração que vi num jornal. Um governador disse: “Não podemos abrir mão de nosso desenvolvimento. Hoje, de 25% a 28% de nossa área estão sendo utilizados para a agricultura ou para a pecuária. Podemos chegar até o percentual de 40% e iremos fazer isso”. (Jornal da Ciência, 6/08/04). O governador se colocava contra a proposta da SBPC de uma moratória no desmatamento da Amazônia. Proposta que não foi bem recebida por ele.

Aí me lembrei das fábulas. E me lembrei também daquela sobre os sócios do leão, que vou contar a seguir. Dizem que, há muitos anos, uma ovelha, uma cabra e um leão tornaram-se sócios. Um veado caiu numa armadilha da cabra e eles quiseram fazer a partilha da presa. O leão logo partiu a caça em quatro partes e disse: — eu fico com a primeira porque sou o rei, pego a segunda por direito, tomo a terceira por ser dos três o mais valente e, se alguém quiser a quarta, acabo com ele.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Indiscrições

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Ontem eu acordei disposto a trocar meu carro velho por um novo. Nada demais, afinal um carro a mais ou a menos nas ruas não vai fazer mesmo muita diferença, não é?

A dúvida era quanto ao modelo, pois o bombardeio da mídia é intenso e, confesso, estava confuso. Parece que os carros estão adquirindo consciência e sentimento tal o grau de modernidade, informatização e desenvolvimento tecnológico que atingiram. Nem sei se vou ser capaz de dirigir um carro que não preciso mais de trocar a marcha e que fala para onde devo ir. Um carro em que preocupações com baliza, estacionamento ou manobras complexas são coisas do passado, pois eles vêm com sensores, com piloto automático, com vidro elétrico, com direção hidráulica, com computador de bordo, etc. Pergunto: para quê motorista? Coisa mais antiga, arcaica. Mas tudo bem, pensei, é o progresso, é a tecnologia nos beneficiando, nos livrando de trabalho degradante e de ter de sujar as mãos com óleo e graxa. Tomara que venham também com um sistema contra furo de pneu e, quem sabe, num futuro breve, não seja preciso mais usar gasolina e nem álcool. Essas coisas poluem muito o ambiente.

Aí li uma matéria, num jornal especializado, sobre carros com chips. Se um veículo possui o chip é possível localizá-lo onde quer que ele esteja na face da Terra. Nenhum carro, e seus ocupantes, é claro, passarão despercebidos daqui para frente. Ninguém conseguirá se esconder e nem passar um tempo sumido.

O argumento principal está relacionado a roubo, mas eu percebi tudo. Roubo coisa nenhuma, o que se está tramando é um jeito de vigiar as pessoas. Logo eu, que gosto de ir para o mato, que gosto de passar um tempo longe de tudo, no maior silêncio, só observando os pássaros construindo seus ninhos, serei vigiado, seguido, controlado? Não, comigo não.

Imaginem a seguinte situação: eu desapareço por um tempo e chega um helicóptero à minha procura, ou dispara um alarme bem na hora em que uma onça pintada aparece para beber água naquele refúgio que só eu e ela conhecemos? Ficaremos neuróticos, sem dúvida.

E se eu resolvo mudar de direção numa rua ou avenida? Eu explico. Estou me dirigindo a um compromisso e decido mudar de rumo, fazer outra coisa. Digamos que saí para ir ao supermercado, fazer uma compra, mas achei melhor visitar um velho amigo e dou meia volta, vou numa direção completamente diferente. O que pensarão os encarregados de controlar o chip do meu carro? Que fui seqüestrado? Que enlouqueci?

Que situação! Logo estarão no meu rastro, seguindo minhas pegadas eletrônicas, vasculhando minha vida, descobrindo minhas fraquezas, arquivando meus trajetos. Então um carro da companhia de chips me para e o responsável diz: “Senhor Renato, o senhor se desviou do caminho, mudou a rota e não nos comunicou. Não pode fazer isso.” Eu respondo o quê? Mando para aquele lugar ou peço desculpas e volto ao bom caminho?

Melhor não trocar de carro, ou andar mais a pé, de bicicleta, sei lá. E se resolvem implantar o chip na gente? Não! Já basta ter de sorrir de modo hipócrita toda vez que me deparo com uma câmera.

sábado, 3 de abril de 2010

Viagens

Renato Muniz Barretto de Carvalho

Uma boa parte da minha vida profissional, enquanto professor, passou-se fora das salas de aula. Perdi a conta de quantas foram as excursões, as atividades de campo, as viagens de estudos ou os trabalhos de campo. Pouco importa o nome, algumas foram mais técnicas, outras foram puro lazer associado a estudo. Todas valeram a pena. A maior parte delas foi feita de ônibus, mas algumas aconteceram de trem e até mesmo a pé.

Todo professor devia, ao menos uma vez na vida, sair da sala de aula com seus alunos. Ver e mostrar o mundo como ele é. Sentir e estimular a percepção de como os fatos acontecem, sejam eles os físicos e naturais, sejam eles os sociais, antropológicos, econômicos ou históricos. O que importa é ver e participar, proporcionar o contato com a realidade. Não que o aluno não o faça, em casa, nas viagens com a família, no seu cotidiano, a diferença está na maneira de olhar, está na orientação que o professor pode dar e também ao partilhar as descobertas e a aprendizagem com os colegas.

As viagens podem ser longas, curtas, à noite, durante o dia, na praça, distantes ou próximas, o que vale é o momento de saída, a compreensão de que o mundo pode ser apreendido na sua totalidade, na sua complexidade e também na sua simplicidade.

Uma viagem possibilita diversos instantes mágicos incomparáveis, insubstituíveis. Por melhor que sejam as aulas, ou por melhores e mais bem produzidos que sejam os audiovisuais, nada se compara ao contato direto com a natureza ou com a realidade construída pelas sociedades na sua dinâmica e diversidade. Museus, monumentos, paisagens, rios, serras, cidades, lugarejos, igrejas, bibliotecas, teatros, casinhas ou prediões, dentre outros elementos da paisagem natural ou social, existem para serem admirados, visitados, discutidos e conhecidos.

As viagens não são fáceis de serem planejadas e nem sempre recebem o necessário apoio da direção das escolas e dos pais. A responsabilidade acaba ficando por conta do professor, principalmente quando algo não ocorre conforme previsto. Diversos fatores interferem no sucesso de uma viagem, além do medo, por parte dos responsáveis, de que alguma coisa aconteça de errado. Essas dificuldades poderiam ser mais bem superadas se todas as etapas fossem compartilhadas por todos. Viagens não começam no instante de partida, nem terminam na hora da chegada, mas envolvem um bom projeto, uma boa razão, trajeto, condução, materiais, horários, enfim dão trabalho, o que pode desestimular e dificultar sua realização. Mas nada se compara ao rosto cansado e relaxado de quem chega de uma viagem com muita história para contar, com uma experiência, boa ou não, para relatar e guardar na memória. Sinal de que algo ficou, de que aprendemos alguma coisa, de que a autonomia diante da vida e da realidade foi, ainda que em parte, conquistada.

Ao retornar de mais uma das inúmeras viagens que fiz ao Parque Nacional da Serra da Canastra com alunos e amigos, essa é a sensação que tenho -- dá trabalho, mas vale a pena, desde que bem planejada -- e que resolvo repartir com meus leitores.